Uma Teologia Brasileira: desafio de um saber sem sotaque

Há poucos dias participei de um encontro de teólogos. Trata-se de uma consulta que a WEA (World Evangelical Alliance) realiza ocasionalmente. Foi bom participar do evento que não ocorria há anos, mais pelos contatos e comunhão, menos pelos conteúdos apresentados, embora tenha sido muito enriquecido com o que ouvi de alguns por lá. Deixei de frequentar esses eventos teológicos por um certo cansaço em ouvir sempre as mesmas coisas. Mas, alguns anos se passaram e, sim, o disco teológico que ainda toca, ao que me parece em pelo menos alguns dos que participam destes eventos, está ainda emperrado nas mesmas faixas. Contudo, foi muito bom ver pessoas que se deslumbravam com o conteúdo apresentado, pois isto me lembrou que sempre tem gente precisando dos antigos saberes teológicos e, principalmente, de me fazer pensar se fiz o dever de casa – de viver o que aprendi e se, de fato, aprendi, pois lugarzinho perigoso este, o de achar que já se ouviu de tudo, não é? Igualmente importane é saber o que estou fazendo e farei com tudo o que já ouvi em tantos eventos? Espero, então, que a WEA promova muitos outros encontros como este, pois não só há publico como há demandas para todas as faixas.

Não quero passar a idéia também de que devemos procurar novidades teológicas. Afinal, tudo o que já devia ter sido dito, em termos de conteúdos fundamentais, já o foi, não por teólogos, é claro, mas pelos autores da matéria prima da teologia: Jesus e seus apóstolos. Na verdade, devemos até mesmo desconfiar se encontrarmos novidades, conforme alguém no encontro nos lembrou ter dito Henri Nouwen. No entanto, ouvir as velhas mensagens e teologias com conteúdos criativos e aprofundados é plenamente renovador, vivificador.

Mas, o que mais chamou minha atenção no evento foi uma fala que muito se repetiu por lá: a de que precisamos fazer uma teologia brasileira, ou latino-americana, como alguns assinalaram. No início, achei o tema muito interessante e desafiador, mas minha mente logo começou a querer saber mais sobre isto e, então, o desafio virou conflito pois, talvez por falta de tempo, o assunto não foi aprofundado devidamente. Aliás, esta foi a minha última pergunta, mas o tempo acabou e o palestrante respondeu com conceitos elementares da tal faixa citada lá atrás. Devemos ficar atentos se não estamos subestimando o conteúdo dos que nos ouvem, pois podemos tratá-los como tupiniquins teológicos – como pessoas que ainda estão no processo de uma catequização primitiva. E enquanto nos enxergarem assim, ou nos enxergarmos assim, qualquer interatividade será inócua.

Deixe-me levantar algumas questões sobre o tema de se fazer uma teologia brasileira. Ao tocarmos neste assunto atravessaremos as áreas da contextualização, da hermenêutica e da epistemologia. Mas este texto é um ensaio e, como tal, não se propõe a ser um tratado formal ou uma análise definidora, mas uma reflexão livre, ainda que dentro de pressuposições. Definiria como uma reflexão analítica gerada por inquietações teológicas. A primeira questão gostaria de assim formular: seria a teologia um saber cuja construção deve ser válida apenas no contexto onde foi realizada? Vamos transpor esta mesma questão para outras áreas. Nunca ouvi um psicólogo afirmar que precisamos fazer uma psicologia brasileira. Na verdade, isto não faria sentido algum. Precisamos, sim, de psicólogos brasileiros, que saibam aplicar os conceitos diversos da área psi, seja de onde e de quem for, à nossa realidade, o que não implicaria em se ter construído uma psicologia brasileira. Da mesma forma que o conteúdo de uma abordagem teórica da psicologia pode ultrapassar fronteiras geográficas ou culturais, os pressupostos teológicos não devem se restringir à cultura de quem os criou. Sim, houve uma série de descaminhos pelos quais a igreja e sua teologia se enveredaram, mas Barth, Calvino ou Bonhoeffer não devem ser responsabilizados por isto. Volto a isto no próximo texto, quando falarmos de outras questões hermenêuticas.      

Ainda nesta linha de questionamento, também nunca ouvi sobre a necessidade de se fazer uma filosofia brasileira. Seria a filosofia de Platão e Aristóteles aplicável somente aos gregos? Nada haveria de se aproveitar de Kant ou Hegel, porque, afinal não são brasileiros? (imagino alguns rindo afirmando que não tem mesmo). O que dizer de Pascal? Esqueçam: Il est Français. As afirmações de que quando Barth fez sua teologia não era um brasileiro ou um africano que estava em sua cabeça – mas, sim, um alemão e toda a sua cultura e realidade – e a de que Barth teria feito sua dogmática para responder às questões de seu tempo e lugar parecem lindas, no entanto, não nos apressemos em concordar com elas. Há uma questão epistêmica que precisa ser verificada: trata-se da territorialização da teologia. Ele não chegou a afirmar, mas será que ele queria dizer que sua teologia não nos serviria por não ter sido feita por e para nós? Seria a teologia um prato típico que só pode ser degustado por quem pertencer à sua cultura de origem? Bem, devo admitir que uma vez comi sarapatel (uma comida baiana carregada) e passei muito mal. Mas o mesmo não aconteceu com o acarajé, nem mesmo com os abençoados sushi e sashimi. Logo, será que somente nós, os que conhecemos a realidade dos brasileiros, é que saberemos fazer uma teologia que sirva para nossa realidade? E mais, o que de teologia aqui produzirmos deverá servir apenas ao consumo interno? Responder sim a estas duas questões nos colocará na contramão do que Machado de Assis defendeu sobre o alcance de uma obra literária (não, não estou reduzindo saberes, mas teologia e literatura têm em comum o fato de se utilizarem de palavras que representam uma realidade, mas que perpassam o tempo). Machado de Assis acreditava que quanto mais profundo em sua própria cultura e realidade um autor conseguir chegar, mais essencial sua obra seria, mais abrangente, logo, universal e atemporal. Lembro-me de ler Guimarães Rosa refutando a regionalização de suas obras, já espalhadas pelo mundo. É a alma humana que está ali presente, assim como está em Shakespeare, Woody Allen ou C. S. Lewis.

Uma teologia profunda não se enclausura nos limites de responder questões do tempo e do espaço, conquanto ofereça um norteamento para tais questões. Uma teologia profunda, assim como uma psicologia, filosofia, ou uma obra literária ou artística, nunca será apenas regionalista ou territorializada, mas, se profundos, estes saberes, ainda que construídos utilizando signos e conteúdos regionais, não se restringirão a estes e tratarão de coisas essenciais, de questões universais, de modo coerente, sensato, com pressuposições sólidas. O quanto podemos compreender de nossa própria cultura imergindo nas descobertas de Lévi-Strauss ou de Marcel Mauss? Quanto de seus escritos ou os do romeno Mircea Eliade ou do francês Durkheim nos ajudam a compreender a nossa própria religiosidade? Sim, um saber construído de modo profundo atravessa todas as fronteiras, desterritorializa-se.

Bem, acho que por ora vou ficar por aqui. Ainda não concluí meus pensamentos, mas fá-lo-ei no próximo texto, considerando de modo mais direto os temas da hermenêutica, da contextualização e da subjetividade que lhe são inerentes. Assim, veremos a teologia enquanto um saber atravessado pela vivência e pela história de quem a constrói e poderemos pensar melhor a questão dos sotaques teológicos. Você conhece esta faixa?

Ainda uma palavra final: para quem considerar que meus pensamentos estão situados justamente naquelas faixas dos discos teológicos que tocam os mesmos conceitos, o que é muito provável para alguns, peço clemência, pois talvez seja mesmo um puro e simples tupiniquim teológico: um ser de livre pensar que começou a caminhar em palavras sobre as coisas de Deus.

2 Responses to “Uma Teologia Brasileira: desafio de um saber sem sotaque”

  1. Liv Says:

    Amei a forma como o ensaísta expressou o seu pensamento. Ele é brilhante!

  2. Danilo Lemos Says:

    Parabêns, pois sou a favor que precisamos nos fixar em produzir a nossa propria teologia, sem misturas e direcionamentos que não emglobam nossa cultura teologica, na Cristalidade Brasileira. Para isto precisamos olhar que no Brasil podemos ter: Thillichs, Baths e Bultmans.
    Prossiga.

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