“Senta aqui, senhor!”
Há cerca de duas semanas passei uma experiência inusitada. Pela primeira vez, uma adolescente cedeu-me seu lugar no ônibus. Vendo-a levantar-se já me falando: “senta aqui, senhor!”, nem tive a chance de negar. Ela marcou a minha vida. Sim, sou mesmo um senhor para quem os jovens já se levantam. Como soa estranho afirmar isso. Até ontem mesmo, eu me via na posição de um-dos-que-devem-se-levantar, mas agora sou um-daqueles-para-quem-se-levanta. A educada donzela (deixem-me assumir-me de vez!) ficou em pé ao meu lado durante um tempo. Algumas paradas depois, o lugar ao meu lado ficou vago. Eis o diálogo que se travou: “Olha, menina, você marcou a minha vida. Esta foi a primeira vez que alguém me cedeu o lugar. Por um lado, fico feliz em ver que ainda temos gente educada. Mas, por outro, vejo que ultrapassei mesmo o limiar da juventude. Agora, acaba de se inaugurar este tempo em minha vida: Sou um senhor-para-quem-se-deve-levantar. Eu nunca mais vou esquecer você. Você marcou a minha vida pra sempre”. Bem, ela não me respondeu nada, pois todo esse diálogo se travou apenas em minha mente. Não tive coragem de lhe falar nada disso, pois alguns destes senhores-para-quem-se-deve-levantar não passam de velhos assanhados. Fiquei com medo de ela pensar que eu era um desses. Ela só quis ser educada e ceder seu lugar a mim. Acho que fiz bem em não lhe falar nada. Mas, esse episódio foi um divisor de eras, de ciclos. Agora não me olho mais do mesmo modo no espelho.
Também não vejo mais a minha vida da mesma forma. Afinal de contas, estou na outra metade da vida. Acho que já estava há um bom tempo, mas só agora percebi de modo inquestionável. Não pensei em tirar a branca barba, nem em usar roupas mais joviais (caramba! Tô parecendo um velho!). Não pensei em mudar o cabelo. Pode ser que, daqui a uns anos, eu até queira fazer essas coisas, mas agora não. Apenas comecei a pensar no que fiz da minha vida até aqui. Ainda bem que, logo, logo, achei melhor pensar não no quê, mas, no como tenho vivido até aqui e concluí que foi acreditando e gostando – fiz com verdade. Errando à beça, mas “fui indo” e, às vezes, “fui voltando”, caminhando e seguindo minhas canções.
Falando em canções, lembro-me de uma frase de minha querida amiga, Wanda Sá: “É Vander (ela nunca me chamou de Vandi), esse pessoal me mete o pau… Mas eu tô aí, caminhando com Jesus, devagarzinho, enquanto vários deles já saíram do páreo”. Devo muito a Wanda, pois foi uma das pessoas que me ensinou a caminhar com Jesus desreligiosamente, sem falar no Madruga, na Lauren, no Robin, no Antônio, no… Pois é! Lembrei de amigos queridos, lembrei de histórias gargalhantes, lembrei que o que importa é continuar vivendo, indo-voltando-indo. E sobre cada hífen, entremeando cada momento: saboreando a convivência com a Liv, o êxtase de estar com Tequinho, Isabelle e João Pedro (e o Muleki, claro!). Lembrei ainda de, simplesmente, continuar na luta por meus sonhos e projetos atuais. Nada disto seria verdade se hoje eu não fosse um destes senhores-para-quem-se-deve-levantar. Tá valendo e muito!
Até,
Vandi.
Deixemos de coisas e cuidemos da vida.
PS. Antônio e Meise: Parabéns, amigos!

junho 16th, 2010 at 16:30
Poxa Vandi… maravilhosa essa história. Por muitos motivos…
Tamos juntos na caminhada.
Grato a Deus de ter vc como amigo.
Grande abraço!
Rodrigo.
junho 16th, 2010 at 18:17
Oi, Vanderley!
Lembra de mim? Sua profesora de francês? Hehehe!
Gostei muito do texto! Mas, a meus olhos, você ainda é jovem!
Abração!
Norma
junho 16th, 2010 at 19:35
Olá Vanderley,
Importante reflexão mano! É gratificante percebermos que é possível extrair lições tão ricas de situações triviais. Na verdade, cada episódio em nossa jornada pode se tornar uma oportunidade para repensar a vida e aprender a viver melhor.
Forte abraço!
Augustinho
junho 16th, 2010 at 22:08
É chefe – daqui da Guatemala, sorrio com seu texto.
Já passei desta metade há muito tempo, e ainda fico feliz com essas idas e vindas que a vida nos permite fazer, pra não dizer que são as coisas aprendidas na convivencia com o Geraldo.
Até segunda!
junho 16th, 2010 at 23:43
É, Vandi… Pior que a gente não percebe mesmo que já chegou tão longe, né? Precisa alguém sinalizar, e a gente até leva um susto!
Ainda bem que a vida é eterna… e que esse corpo, vai ser trocado por outro modelo, mais resistente e durável,
Enfim… com barba branca ou não, vc continua um gatão! Com todo o respeito à senhora dona “Liv”, que, aliás, também é uma gatona.
bjos
junho 17th, 2010 at 10:48
Muito bom Vandi! Esse olhar para a vida faz toda a diferença. E obrigada pelo privilégio da convivência. Aprendo demais!
E concordo com a Norma: a meus olhos você é ainda jovem!
Gabi.
junho 17th, 2010 at 14:50
Pastor,
Quando vi o título associei logo a Deus, um pedido ao Pai para “sentar comigo”, perto, tô precisando…
Mas, nada disso, uma experiência inusitada. Comigo nunca aconteceu… já tem tempo que não ando de ônibus (ha! ha! ha!).
Valeu muito! Obrigada por compartilhar.
Abraço,
Priscila
junho 17th, 2010 at 15:58
Vandi,
você se supera!!!Me sinto contagiada pela simplicidade e profundidade da sua vida e de suas palavras.É uma honra poder ter livre acesso aos seus posts.
Um abraço !
Mari Vidal
junho 17th, 2010 at 16:32
Vanderley
Qdo li o titulo do post, achei que ia ser um convite de Cristo pra sentar perto de ti,… mas nao foi beeem isso… foi bem mais uma experiencia real de vida, de que devemos servir a Deus… e sua retrospectiva de vida, certamente, vai deixar rastros positivos… é isso ai!
Vanderley e Elivania, e filhos, vivendo pra Cristo!
Agora sentadinhos no primeiro banco do onibus…rsrsrs
Bjs
julho 1st, 2010 at 9:49
Pastor, espero que o senhor não venha a ser um daqueles senhores rabugentos, que respondem um tratamento bem educado com um “o senhor está no céu”. Essas coisas acabam comigo.