Archive for outubro, 2009

E não nos deixes cair…

segunda-feira, outubro 26th, 2009

      Todos nós temos um desejo, ou mais, cujo domínio é um árduo desafio. O caminho do autodomínio não é mesmo nada fácil e gostaria de refletir sobre ele. Para isto, escolhi o drama ocorrido entre os irmãos Caim e Abel.

      Segundo a narrativa bíblica, Caim tinha terríveis sentimentos de inveja em relação a seu irmão, Abel, e não conseguiu dominar seu desejo de vingança contra este. Por quais trilhas Caim andou que o fizeram não dominar seus desejos? Acredito que o roteiro da queda de Caim pode nos ajudar a refletir sobre as nossas próprias, vamos ver?

      Caim “andava” irado. Ele não ficou irado, como às vezes ficamos mas, depois, passa. Não, ele nutriu e caminhou com um sentimento perigoso e este foi o seu erro. Essa é uma lição valiosa: sentimentos negativos, como ressentimentos, mágoas, frustrações, medos, invejas, iras e toda espécie de desejo libidinoso ilícito devem, o quanto antes, ser resolvidos, pois nos enfraquecem e nos dominam. Devo ter coragem de reconhecê-los em mim mesmo e jogá-los aos pés da cruz e, isto, antes que o sol se ponha.

      Caim banalizou o poder de seu desejo. O texto usa uma expressão interessante: ‘desejo do pecado’. Nem todo desejo é pecado, mas o desejo do pecado - este nos cumpre dominar, pois é ilícito e nocivo.  É o pecado que “jaz à porta”. É como uma fera que está pronta para dar o bote na presa. Caim não levou a sério a gravidade de deste desejo, mesmo sendo prevenido por Deus. Lição valiosa esta: não devemos nos considerar fortes para lidarmos com nossos desejos, pois eles podem mudar nossa lógica, perverter a razão, nos dominar e podem detonar nossa vida. O que se sabe fraco é que se torna forte. Já o que pensa ser forte, logo, logo será nocauteado.

      Caim pensou que poderia viver de modo isolado de seu irmão. Quando Deus lhe pergunta sobre Abel, ele Lhe dá uma resposta desaforada: “por acaso eu sou tutor de meu irmão?” Caim pensava que não, mas era, sim, o tutor de seu irmão. E mais: deveria se deixar tutelar por ele. Se tivesse conversado com Deus, ou mesmo com Abel, sobre suas fraquezas, a história teria outro fim. Mais uma lição: devemos procurar alguém, que seja de confiança, para conversarmos sobre nossos desejos e até mesmo, em alguns casos, procurar uma ajuda profissional. Precisamos de tutores que cuidem de nós.

      Caim não conhecia a Deus direito. Sua visão sobre Deus era distorcida, pois pensou que, com suas boas ofertas, iria conseguir a aceitação e o amor de Deus. Enganou-se tremendamente: o amor de Deus é incondicional. Ele me ama independente do que sou e do que faço. Que lição! Minha relação com Deus se baseia em Sua graça e em Seu amor incondicional por mim. E, quanto mais lançar-me nesta relação de amor, mais força terei para não cair em tentações.

      Creio que esses cuidados podem nos ajudar a lidar com os desejos que precisam de domínio – os “desejos do pecado” que ferem a graciosa vontade de Deus.

      E se cairmos? E se a nossa lógica e razão não resistirem e ruírem ante algum desejo? E se os estragos detonarem nossa vida e até mesmo a de outras pessoas, o que nos restaria? O drama de Caim e Abel tem algo a nos dizer neste caso também, mas fica para o próximo post, ok?

      Até.

     Vandi

     Quanto ao mais, deixemos de coisas, cuidemos da vida (e dos desejos).

Lições com o Rev. Antônio Elias

sábado, outubro 10th, 2009

          Volta e meia, alguém me fala sobre algo que aprendeu com o Reverendo Antônio Elias (a poucas pessoas caberiam tão bem o tratamento de reverendo). Se por acaso você não o conheceu, não vou poder apresentá-lo aqui, pois isto demandaria vários posts. Mas posso lhe adiantar que foi um daqueles pastores dos quais se deve dizer: “que grande e extraordinário homem ele foi. Um exemplo de bom pastor”. Ele faleceu em 2007, aos seus 96 anos de vida. Quero compartilhar algumas coisas que aprendi com ele e que me fazem muita diferença na vida.

          Há muitos anos, fomos falar com ele sobre alguns colegas de seminário que considerávamos carnais, ou seja, tão bagunceiros que não nos pareciam, sequer, serem convertidos. Achei mesmo que ele iria nos dar razão. Mas, não. Ele manteve-se em seu singular e vívido sorriso e nos disse: “pois é, filho, talvez estes se tornem verdadeiros homens de Deus lá na frente”. Confesso: fiquei decepcionado por não ter ficado do nosso lado. “Se ele soubesse de quem falávamos, não teria esta tola esperança”, pensei. Mas ele estava profeticamente certo. Eu jamais poderia imaginar que um daqueles que estavam em minha mente algoz, naquele momento, viria a ser um de meus grandes amigos e que me tem abençoado com seu ministério e com sua amizade. Um verdadeiro homem de Deus. É melhor mesmo não julgar ninguém, como também, deixar de lado toda arrogância. Valeu, Reverendo!

          Quando fui ordenado a pastor, o Reverendo estava lá. Pediram-lhe que nos desse alguns conselhos. Nos deu dois. Disse-nos que um ministério jamais pode ser desenvolvido sem oração. Hoje, já começo a compreender isto, pois vejo que a oração, mais do que ajudar ao desenvolvimento do ministério, ela nos transforma. Também nos disse algo com que fiquei surpreso: “com mulheres tenham toda amizade, mas pouca intimidade”. De novo pensei: “isto é radical e não é para mim”. Eu ainda era solteiro e o que mais queria era ter amigas. Hoje, conhecendo melhor minha própria natureza e vendo o estrago que esta intimidade distorcida causou na vida de alguns amigos, faço minhas as suas palavras: todo cuidado ainda será pouco. E, se você aí acha que estamos sendo radicais…: cuidado que não caia!

          Mais uma: estava em uma crise muito grande com uma igreja onde eu era o pastor. Esta igreja não crescia e era muito questionadora, o que era bom, e eu era muito apegado a ela. Fui procurá-lo na intenção de que ele me apontasse alguns caminhos para chegar ao crescimento que esperava. Ele apontou para outra direção e me disse algo que me desmontou todo e que foi difícil demais entender naquele momento: “Filho, se desta rocha não está saindo água, vai ver o Senhor quer que você bata em outra”. Ele calou-se e orou por mim. Foi difícil, mas considerei suas palavras e, em pouco tempo, eu estaria em outra rocha. Para minha alegria, depois de mim, muita água tem saído daquela, mas com a batida de outro. Glória a Deus!  A bênção é que eu descobri que, na verdade, Deus tinha outras águas para mim e que devo esperar o fruto condizente com o meu chamado.

          Uma última: fomos, eu e um amigo, conversar com ele sobre um grupo de pessoas que estavam deixando sua igreja e querendo ingressar na nossa. Lhe dissemos todas as coisas negativas que este grupo falara de seus ex-líderes. Ele simplesmente nos disse: “olha, filhos, se eles agora falam mal deles, amanhã estarão falando mal da gente”. Um sábio, não é mesmo?

          Ao Senhor a honra e nossa sincera e profunda gratidão por nos ter dado o privilégio de ter convivido com um homem assim.

          Até.

          No mais, deixemos de coisas e cuidemos da vida.

          Vanderley