Archive for agosto, 2009

Uma igreja aberta a todos, mas não a tudo. (1a parte)

quinta-feira, agosto 27th, 2009

          Acabo de participar de um debate sobre o tema “Uma igreja aberta a todos, mas não a tudo” e gostaria de expor algumas idéias sobre isto. Espero que meus amigos debatedores me desculpem por não citá-los de modo específico, mas fui anotando as ressonâncias do que ouvia, articulando idéias próprias e, agora, vou desenvolver tudo isto.

          Antes de pensar: “lá vem mais um texto falando (mal) de igreja”, permitam-me uma lembrança inicial: amo a igreja de Jesus e não quero falar sobre ela, mas para ela e o faço pela razão de amá-la e por acreditar que ela pode e deve ser melhor.

          Pois bem! O primeiro pensamento que me vem é: deveria a igreja ser aberta a todos? Parece que todos concordamos, ao menos na teoria, que sim. Se pensarmos a partir do convite feito por Jesus aos homens para que o sigam, perceberemos que o mesmo era feito a todos: “E dizia à todos: se alguém quer vir após mim… “ (Lc 9:23). Seu mandamento para que seus discípulos pregassem de si também foi para o fizessem à todos: “Ide por todo o mundo…” (Mc.16:15).

          Bem, se há algum lugar no mundo capaz de aceitar todo tipo de gente, de qualquer lugar ou tribo, este é a igreja. Isto é lindo! Que verdade maravilhosa! Mas, que mentira isto também pode ser! A mentira não estaria na afirmação, que é mesmo linda e verdadeira. A mentira pode estar no que acontece de fato. Afinal, não tem sido a igreja um lugar para os iguais, para os “mesmos”? Nossos cultos, nossas mensagens, nossa liturgia, nossas músicas ou louvores levam em consideração que público? A linguagem que usamos, a forma litúrgica que lançamos mão, é para alcançar e tem alcançado a quem?

          Pergunto-me se não estamos completamente descontextualizados. Lembro-me daquela frase: “fiz-me tudo para com todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns”. Como a frase é do apóstolo Paulo (I Co 9:22), creio que devemos seriamente refletir, auto-criticamente, sobre ela, não acham? Tenhamos coragem de sair de nossos engessamentos litúrgicos. Que tenhamos a ousadia santa de mudar nossos cultos comunitários, tantas vezes longuíssimos, chatííííssimos, religiosíssimos e superficialíssimos. E, por outro lado, tantas vezes, espetaculosíssimos, emocionalicíssimos, showsíssimos ou mesmo mercantilíssimos. Sempre levando em conta, sim, que tudo deve ser feito para glória de Deus, mas de modo tal a facilitar a participação e compreensão dos presentes, sejam estes os da fé, e principalmente, o que deveria ser nossa principal preocupação, os não adeptos, os ainda não conversos.

          Fique, então, com esta pergunta: nossos cultos, com tudo o que neles acontece, têm revelado a insondável beleza do evangelho aos que dele participam, ou por se incluírem em um dos “íssimos” acima têm mais afastado que edificado as pessoas? (Lembremos que este afastamento nem sempre se dá fisicamente, pois as pessoas continuam presentes, seja por costume ou por escassez de programas melhores, mas seus corações ficam duros, frios, ou pior, mornos, quando Jesus sai do centro, quando sua mensagem não é exposta de modo  vivo, quando sua mensagem da cruz cede espaço a outras mensagens, quando nossas almas não ardem mais em sua presença).

          Contudo, ser aberta a todos não significa, necessariamente, ser aberta a tudo. Mas, isto fica pra o próximo post quando falaremos da segunda parte do tema: uma igreja que (não) é aberta a tudo. Pensaremos sobre o que pode e o que não pode entrar na igreja, o que tem entrado e não deveria, o que não tem entrado e deveria entrar. Até lá!

Viver: uma lufada de vento ou uma experiência perene de amor (parte 2)

quinta-feira, agosto 20th, 2009

Viver: uma lufada de vento ou uma experiência perene de amor (parte 2)

    Na primeira parte desta nossa reflexão sobre o personagem central do capitulo 2 de Eclesiastes, falamos que transformamos a vida em uma lufada de vento, a despeito de nossas conquistas e realizações, quando temos uma visão narcísica, romântica e hedonista da vida.

    Vejamos, agora, o quarto e último ponto desta reflexão

4) Este homem tinha uma visão dissimulada da vida.

       Este ponto é mais sutil e subjetivo. Vejamos então: a despeito de eu mesmo levantar algumas críticas sobre o personagem do texto, devemos destacar que ele tinha várias virtudes. Afinal, quem consegue chegar aonde ele chegou precisa de virtudes para isto. Ele deveria ser um homem de visão, consciente do que queria e provido das estratégias corretas para concretizar seus alvos; ele deve ter sido um homem diligente e dinâmico, pois uma pessoa sem iniciativa não faria o que ele fez; ele deve ter sido um bom líder, pois se cercara das pessoas certas para fazer tão bem o que se propusera. Talvez um homem carismático, de ótimo gosto artístico, pois tinha os melhores cantores à seu dispor e deveria ter uma boa saúde e vitalidade, pois, afinal, tinha muitas mulheres… Mas, talvez, tenham sido justamente as suas virtudes que se configuravam como a principal ameaça ao que poderia trazer sentido a sua vida, pois muitas vezes, são as nossas virtudes que escondem os nossos defeitos. Ou seja, usamos nossa luz, para esconder nossas sombras. Tornamos, assim, nossa luz em trevas. E, quando nossa luz são trevas, que grandes trevas são !!!

    Consideremos a dialética : amor versus desamor. Acredito que quando pensamos nestes dois conceitos um em contraposição ao outro, pensamos quase que imediatamente em um quadro com dois pólos distintos e bem definidos: de um lado o amor e do outro o desamor, como sendo sua antítese. Mas, o desamor nem sempre aparece nesta forma antitética ao amor. Aliás, o termo desamor por si mesmo não indica necessariamente uma confrontação ao amor, mas por seu prefixo revela-se, um enfraquecimento ou adoecimento do amor. Vou preferir ficar com idéia do desamor como uma dissimulação do amor, ou seja, um desamor camuflado pelo amor.    

    Assim, como o homem de nossa história, dissimulava o real sentido de sua vida com suas virtudes, ou seja, suas virtudes encobriam suas faltas, nós também podemos fazer de nossas virtuosas conquistas e saberes uma excelente estratégia para camuflar nosso desamor. Deste modo, a honestidade, a verdade, os deveres sociais cumpridos, o cuidado familiar, a vida profissional desenvolvida com dignidade, estas e outras virtudes podem nos dar a sensação de que já estamos fazendo e sendo o suficiente. Nos trazem a consciência de que nada mais nos é necessário, nada mais nos falta para dignificar e valorar a vida. Creio que a pior espécie de desamor é justamente aquele que é dissimulado, encoberto pelas virtudes. É este tipo de desamor que sutil e sorrateiramente nos aprisiona sem que nos percebamos como suas presas. Afinal, podemos pensar, “trabalho com honestidade, não faço mal a ninguém, dou o dízimo e ainda ajuda missões e instituições. Tudo lá em casa vai bem, e está tudo em paz”, então, to bem na vida!. Este é o pior tipo de desamor, pois não ganha este nome, mas está coberto de uma perversidade cruel onde nossa paz e saúde estão alienadas da dor alheia, do sofrimento do outro, conformada com a miséria que nos extende as mãos, mas encontram mãos ocupadas demais com nossas muitas virtudes.

    Mas, que amor é este que não me locomove a sofrer junto? a estar junto? a chorar junto? É possível mesmo um amor que não se solidariza? Que amor é este que me faz ter conquistas e realizações que não contemplam o benefício do outro? Que amor é este que não comunga, não compartilha? Que amor é este que não economiza para atender ao outro, qualquer outro que seja? Que amor é este que se acomoda ao ver a pobreza e a necessidade alheia? Que amor é este que foge do sacrifício, cujo limite é o sofrimento? Este amor é o desamor travestido de virtudes.

    Querem saber uma virtude que dissimula o desamor de modo excelente? a espiritualidade. Hoje, os espirituais são os que vivem uma espiritualidade monástica, contemplativa, “soletudinária”, mas que está totalmente alheia ao horário do rush. Precisamos de uma espiritualidade que nos ajude a atravessar o congestionamento, que nos ajude a dar glórias durante as quinze horas de jornada de um trabalho árduo e pessimamente remunerado, que me ajude a enxergar a Deus e Seu amor no inevitável estresse do dia a dia sem sucumbir com este. Talvez estejamos apregoando as virtudes de modo tal que o desamor sequer seja reconhecido e, se o é, logo, logo, será dissolvido pelas compensações que nossas virtudes nos trazem.

    O nosso personagem bíblico no fim de seu texto, chega a conclusões muito valiosas. Após considerar muitas outras coisas realmente sabias e verdadeiras, sempre sob sua ótica realista ainda que desprovida de otimismo, ele afirma: Cap. 12:13: “De tudo o que se tem ouvido, a suma é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo homem”. A síntese que acredito estar presente em seus últimos versos é a de que somente seremos capazes de creditarmos um sentido saudável as coisas da vida, as conquistas da vida, as nossas vivências, sejam estas mais simples ou mais complexas, se estivermos inseridos em uma sincera e íntima experiência do perene amor de Deus. É na vivência do temor a Deus, uma relação pautada na certeza de que Ele é Senhor, mas um Senhor que amou-nos até as últimas conseqüências, pois demonstrou isto ao morrer na cruz por nós – é na vivência deste temor, expresso por nós acima de tudo por meio de um amor reverente, obediente e dinâmico – posto que deve estar sempre pronto a servir – que a vida ganhará significado, sentido, segurança e conforto. Temendo a Deus é que cada experiência prazerosa, cada realização, toda alegria vivida, cada vivência em nosso cotidiano, não cairão no vazio, não trarão frustração, pois tudo o que me acontecer, tudo o que eu realizar, tudo o que eu for capaz de viver será visto como fruto da graça deste amoroso Deus e trará como resposta um sincero sentimento de gratidão pela vida: 

                                     “Que bom, meu Deus, é viver e é te ter como fonte da vida. Que bom é poder considerar que minha vida não é uma lufada de Vento, mas uma experiência perene de teu amor por mim”. Deus nos abençoe.

Viver: uma lufada de vento ou uma experiência perene de amor (parte 1).

quinta-feira, agosto 20th, 2009

Viver: uma lufada de vento ou uma experiência perene de amor (parte 1)

(Palestra ministrada na abertura do Congresso Nacional do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos – CPPC. Penedo. Abril/2009)

            O livro de Eclesiastes nos apresenta um homem muito bem sucedido no que diz respeito às expectativas e projetos aos quais se lançou. Ele diz que empreendeu grandes obras, edificou casas, plantou vinhas, jardins e pomares, fez açudes para regar seu bosque particular, que possuiu uma fazenda cheia de empregados, de bois e ovelhas como ninguém jamais obtivera em sua cidade. Ainda afirma que tinha uma imenso tesouro, tinha cantores particulares e muitas mulheres disponíveis para sí. Era ainda um homem sábio e capaz de satisfazer a todos os seus desejos.

Antes de começarmos a morrer de inveja, este homem, porém, ao considerar tudo o que fizera e possuíra chega à conclusão de que tudo era como um sopro, uma bolha, um vapor, uma lufada de vento – tudo isto era vaidade. Em suas próprias palavras:

 

“considerei todas as coisas que fizeram as minhas mãos, como também o trabalho que eu, com fadigas, havia feito; e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento, e nenhum proveito havia debaixo do sol” (2:11)

 

            A pergunta que me faço é por quê um homem tão bem sucedido tem a visão de que sua vida não tem sentido, não tem valor, é efêmera, é vaidade. Ele nos ensina que pode se conseguir tudo na vida sem que se sinta cheio de vida, de gozo. O sucesso não nos impede de, no final de tudo, fazer com que a vida seja considerada como uma lufada de vento, pode não gerar satisfação real.

            Quando então, a despeito das conquistas e realizações, transformamos a vida em uma lufada de vento? O texto nos aponta alguns caminhos.

 

1)    Este homem tinha uma visão narcísica sobre a vida.

 

Em sua narrativa o nosso personagem utiliza a expressão “para mim”: ‘edifiquei para mim’, ‘plantei para mim’, ‘fiz pomares para mim’, ‘fiz açudes para mim’, ‘amontoei prata e outro para mim’. Este homem fizera tudo apenas para si. Assim, quem vive sem pensar no próximo irá perceber, cedo ou tarde, que sua vida é vazia, é nula, é vaidade. Quem vive sem saber desprender amor ao outro, não terá amor pra enxergar a própria vida. Se não amar ao outro, “desamo” a vida, “desamo” a mim mesmo. A vida será mesma uma bolha que foi soprada e só está esperando o tempo de estourar, só que talvez não tenha sequer alegrado criança alguma.

 

            2) Este homem tinha uma visão romântica sobre a vida.

 

Viver para ele era uma caminhada em busca da felicidade. Isto soa romântico e poético, não é mesmo? O fato é que ele pensava apenas na felicidade pessoal. E ainda pensou que esta poderia ser achada na própria vida desde que fosse bem vivida. Ledo engano!

Contudo, não nos apressemos, pois não vou dar uma contrapartida sobre o que de fato pode nos fazer felizes. Falar de felicidade é um assunto muito desconfortável para mim, pois não creio que é para isto que fomos “soprados”, não creio que a fé cristã sequer prometa felicidade. Há promessas sim, de vida abundante (João 10:10), paz, segurança, sentido de missão pra vida. Talvez seja esta a visão cristã de felicidade.

O certo é que não podemos esperar dos prazeres e conquistas da vida o que estas não têm o poder de nos dar, pois em si mesmas estas coisas são apenas vaidade.

Na verdade, a garantia mesmo que a fé cristã nos dá é a de sermos amados. O cristianismo nos garante uma relação perene de amor – um amor incondicional e inarredável.

Assim, eis um caminho para não olharmos a vida como uma bolha prestes a estourar: compreender que toda e qualquer conquista e realização sem a experiência deste amor, será vazia, será bolha de sabão ao relento, será vaidade.

           

            3) Este homem tinha uma visão hedonista sobre a vida

 

Ele pensou que poderia viver sem reconhecer os limites necessários ao prazer e aos desejos e paixões (V. 10).

 

Eu não posso fazer tudo o que quero e desejo. Aliás, posso até tentar, o que não posso é escolher as conseqüências de minhas escolhas. Mas, em linhas gerais devo procurar evitar:

- tudo o que não glorifica a Deus e dificulta minha comunhão com Ele

- tudo o que prejudica ao próximo e dificulta minha comunhão com este

- e tudo o que me prejudica e dificulta minha comunhão comigo mesmo.

 

Era um homem sábio, mas que não soube usar esta sabedoria, porque  esta deve estar rendida e norteada na relação de amor com Deus/Pai. Não há, definitivamente, sabedoria sem uma relação de amor que a sustente.  O começo da sabedoria está no amor/temor a Deus.

(Continuaremos esta reflexão, no outro texto, ok? Não deixe de lê-lo, pois falaremos sobre o que acontece quando temos uma visão dissimulada da vida – quando dissimulamos o desamor em amor).

Em Busca de Novas Trevas – A Urgência de Uma Nova Lógica Missionária (parte 2)

quarta-feira, agosto 19th, 2009

        Em Busca de Novas Trevas – A urgência de Uma Nova Lógica Missionária (parte 2)

        A missão concede não apenas qualificação a vida, mas é o que lhe concede sentido, pois sem ela se torna absurda. Além do que, é justamente a missão que nos concede uma definição de nossa identidade. Logo, cônscios da missão, passamos a estabelecer uma relação identitária com a vida: eu passo a saber de fato quem sou. Sim, estou afirmando que aquilo que somos esta direta e inarredavelmente condicionado a nossa missão.

      Já vimos muita discussão sobre o ser e o fazer. Alguns priorizam o ser colocando o fazer em um plano secundário. Dizem que o que importa é o que somos. Esta afirmação coloca os valores, os conceitos, a moral, o caráter em primazia sobre nossos atos, só que, por vezes, ficamos estacionados nesta subjetivação simplista da vida. Eu mesmo, muito influenciado pela turma da meditação e da contemplação, já fiz isto. Outros, priorizam o fazer e dizem que o ser será gerado por este e é o fazer que gera vida, pois afinal, a fé sem obras é morta. Neste caso, a consciência da urgência de determinadas práticas é que prevalecem e o que importa é a ação, as obras, o fazer. Mas incorre-se no perigo de um ativismo desenfreado, estéril e vazio, podendo nos levar a ficar paralizados pelo estresse e pela frustração de não ver tudo finalizar conforme esperávamos.

         Eu mesmo já fui muito influenciado pela turma do engajamento político ou dos comprometidos com resultados como sendo a evidência de se estar no caminho certo, o que é um engano, pois Deus tem uma visão bem diferente da nossa quanto aos resultados que devem ser esperados. Ora, na minha percepção atual, o ser e o fazer estão por natureza inseparavelmente ligados. Para mim, esta inerência se torna clara quando Jesus afirma a seus discípulos que eles são o sal da terra e a luz do mundo. Ora, o sal é sal por que salga e salga porque é sal e a luz alumia por que é luz e é luz porque alumia. Assim, o cristão é sal porque salga e salga porque é cristão, e é luz porque alumia e alumia porque é luz. Minha identidade é o que é por causa de minha missão e tenho esta missão por causa do que sou. Porém, a despeito de fazer o que faço (missão) por causo do que sou (um cristão) só terei consciência do que sou se estiver cumprindo a minha missão.

          Brennan Manning afirmou que “a resposta para a pergunta: “quem sou eu? não vem pela auto-análise, mas pelo comprometimento pessoal”, assim, enquanto não estiver comprometido com uma visão que não só compreenda mas direcione toda a vida, não serei capaz de ter uma visão correta sobre minha própria identidade. Acredito mesmo que este era o sentimento e o próprio sentido da vida presentes em Noé e foi por isto que Deus o chamou para recomeçar uma nova história da humanidade. Diz a bíblia que “Noé andava com Deus” (Gn 6:9). Aliás, o texto em gêneseis resume toda a história de Noé assim: Noé era homem justo (atos, o fazer) e íntegro (caráter, o ser) entre os seus contemporâneos: Noé andava com Deus”. Sua escolha não se deu por atos ou ministérios específicos que desempenhava, mas por uma razão de ser contínua: Ele andava com Deus. Seu sentido de missão não era intermitente, não era localizado. Sua missão tinha uma abrangência totalitária quanto ao espaõ e ao tempo. é por isso que Deus lhe diz” reconheço que tens sido justo diante de mim no meio da terra”.

           Também era o este o sentido de vida em Davi, pois sabia-se servo e não rei ante ao seu Deus que o chama de “meu servo Davi”. Ele mesmo se punha assim diante de Deus, como seu servo. Creio que se dele é dito que era um homem segundo o coração de Deus é porque sabia que tinha uma missão de viver para este Deus, para servi-lo. Tomemos Isaías, pois creio que ele só resolveu sua saudável crise existencial quando se lanço a missão de ser um enviado por Deus, tal qual acontecera com João Batista. Mas, assim como João, não se tratava de um envio para se fazer algo específico apenas, mas para se tornar alguém cuja missão de vida jamais se divorciaria de sua própria identidade. Seu er era um ser de um enviado por Deus.

         O melhor exemplo desta visão temos em Jesus Cristo, pois a forma como escolhe para ser conhecido foi a de servo: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir”. Todo o ser de Jesus estava envolvido por esta missão: Servir ao Pai e expressar este serviço amoroso servindo aos filhos do Pai. Esta é a lição que nos deixa quando lava os pés de seus discípulos: Ele estava aqui para nos lavar e apresentar-nos assim diante do pai. Alliás, lembro-me ainda no seminário ouvir um estudo sobre o verso 19 d0o capítulo 18 de Mateus, quando me foi dito que o que em nossa versão está traduzido por “ide”, deveria ser indo, pois o tempo verbal estaria no equivalente ao nosso gerúndio, o que sugere muito mais uma forma constante de agir e de ser, uma missão que transcorre pela vida no seu dia a dia.

           Que implicações esta consciência missionária perene, não intermitente, não territorializada, não espacial, mas total, contínua e inerente a toda a vida, nos traz? 1ª) A vida só alcançará seu real sentido e seu real significado se a entendermos dentro desta visão missionária contínua, que se dá no meomento a momento de nossas vidas; 2ª) Precisamos repensar com urgência todos os nossos investimentos, todas as nossas ações, todos os nossos projetos, todas as nossas motivações. Precisamos, ainda, de repensar nossas pregações, nossos ensinos, nossos conceitos, nossas práticas que temos entendido como sendo cristãs. E fazer todo este movimento para percebermos onde temos falhado quanto a deixar de pregar e de viver toda a mensagem cristã que envolve todas as dimensões da vida pessoal, social, eclesiástica, política, profissional, etc. 3ª) Precisamos entender que esta missão está associada ao campo onde será desenvolvida. Se tomarmos como Exemplo o campo de João, que em seu sentido geral é o mesmo que o nosso, estamos falando de trevas. João veio testificar da luz em meio as trevas. Este campo não tem por referência a presença de Deus. É um mundo sem a luz de Deus, sem seu amor, fora de Sua vontade, e o modo como está estruturado está muito longe do que propõe sua palavra.

          A urgência de uma nova mentalidade missionária deve-se a este fato: toda a vida, em suas múltiplas expressões está fora do que Deus planejou para ela, mas sutilmente temos naturalizado um imensidão de práticas e de comportamentos que vão de encontro a vontade de Deus. Mais que isto, temos santificado o que deveria ser amaldiçoado e eliminado de nosso meio. Temos santificado, por exemplo o consumo, o sucesso, a notoriedade, o status.

          Mas o que nos importa aqui primordialmente é que devemos pensar seriamente o que temos dito e feito quanto aos diversos temas que se referem a nossa vida: O que temos falado e feito sobre o desvalor que se tem tratado a vida humana? O que temos dito e feito sobre toda esta violência que assola nossas cidades? O que temos falado e realizado quanto a este modo consumista de se viver, onde a vida humana é valorizada por suas conquistas e pela notoriedade alcançada? Não temos vivido assim também? Não têm sido estes os valores que estão por trás de nossos projetos? Ou de fato queremos servir, pois nos vemos a nós mesmos como servos, como missionários de tempo integral, nas repartições, nas ruas, no lazer, em casa, no trabalho e até nas igrejas? Se somos missionários com visão e tempo integralmente a serviços de Deus, o que temos feito e falado sobre as injustiças sociais de nossos dias, da corrupção de nossos políticos, de nossos magistrados, de nossas autoriades? O que temos falado e feito quanto a pobreza, quanto a miséria, quanto aos meninos e meninas de rua, quanto ao sucateamento da saúde? O que temos falado e feito sobre um sistema educativo decíduo, desvalorizado, que deixa os seus alunos à margem das reais possibilidade de bem-estar da vida? Se Somos chamados por Deus para trazer luz as trevas, temos identificado as trevas? Ou, pelo conforto que nos dá, temos alumiado onde a luz está cansada de se fazer presente?

          Houve um homem enviado por Deus cujo nome era João, cujo nome era Antônio, cujo nome era Luiz, cujo nome era Cláudia, era você… Somos missionários, somos sal e somos luz, todo o tempo, em qualquer lugar, a todo o momento, para a todas as dimensões da vida, custe-nos o que custar, temos a missão de, a todo o momento e em todo lugar, assumirmos a identidade de filhos de Deus, pois fomos criados para amá-lo, servi-lo de modo ininterrupto.

Sucesso que nada! (parte 2)

quarta-feira, agosto 19th, 2009

Sucesso que nada! (continuação)

Talvez, tenhamos de admitir, sim, que realmente precisamos desistir de nossos sonhos atuais, para viver outros muito mais saudáveis, muito mais simples, nada estressantes, nada relacionado a sucesso e sem possibilidade de fracasso, sendo apenas uma opção por uma vida que não aspira grandes conquistas materiais, não almeja reconhecimento de ninguém, não luta por nenhum status social, não se estressa para engordar a conta, não se neurotiza para ser uma vida de sucesso, não se angustia para alcançar insaciáveis, sôfregas metas. Reflita, com carinho, se você poderia dizer sobre si estas frases ditas por uma casal amigo que abriu mão de uma vida estressante: “Quase sempre dormimos com nossos filhos, jantamos juntos várias vezes, tomamos o café da manhã sossegados, reservamos quase todos os fins de semanas para o lazer familiar, temos vários jogos e brincadeiras que têm feito a vida ficar muito mais alegre de ser vivida”. Sem cair em romantismos, serão necessárias adaptações, mas que não precisam ser vistas como desvantagens. Citando algumas, talvez o padrão de algumas coisas será alterado, pois dando mais tempo para outras áreas da vida você irá ganhar menos dinheiro. Logo, não vai dar para ir de carro para todo lugar. Vamos precisar andar mais de ônibus, trem ou metrô ou até a pé. Talvez não dê mais para fazer tantas viagens ou tenhamos que nos restringir as mais curtas. É possível que tenhamos de ficar a cata de algumas promoções. Outro dia, eu, minha esposa e os três filhos, viajamos todos pagando R$25, 00 cada um para viajar de avião, e ainda parcelamos… Foi o primeiro passeio de avião em família. Assim, para fazer algumas coisas como teatro, viagens, shows, etc., pode ser que tenhamos de nos esforçar para conseguir ingressos acessíveis, mas depois de um tempo, será fácil saber onde conseguir estas coisas. Pegar um cineminha pode se tornar menos freqüente, mas você irá descobrir filmes em dvd fantásticos que nem sabia que existia. Vai descobrir também que a pipoca feita em casa, depois de algum know-how adquirido, é muito mais gostosa. Restaurantes poderão ser menos freqüentes também, mas como é bom receber amigos em casa, como é bom aprender fazer uma comidinha diferente, como é bom exercer a hospitalidade!!! Além disto, todos os membros da família irão valorizar muito mais seus ganhos e conquistas. Fico pensando em quantos, ao lerem a lista de possíveis mudanças acima, pensaram que jamais irão abrir mão de alguma destas coisas, pois não se vêem capazes de viver sem elas. Se você é um destes, saiba que por causa delas poderá estar se escravizando a uma vida tão estressante que não lhe sobrará tempo quase nenhum para gozar a vida, nem mesmo gozar as coisas que você julga não saber viver sem elas. Sobre este ponto, é bom nos lembrarmos que a maioria das coisas que reputamos como sendo demandas reais não passam de demandas construídas socialmente. Somos nós mesmos que atribuímos o grau de imprescindibilidade as coisas, mas se por alguma razão formos forçados a ficar sem elas, veremos que a vida continua e às vezes melhor ainda. Claro que é bom ter acesso ao avanço tecnológico de nossos dias: celulares, data shows, note books, i-pods, mp3, 4, 5, etc, são ótimos, mas, esteja certo, se for preciso, viveremos sem estas coisas e até muito bem, sim. Todas estas considerações são, no meu entender, de grande relevância, mas ainda não cheguei ao ponto principal, o que vou fazer agora. O maior e pior perigo desta vida estressante pela busca do sucesso é o descambo ocorrido na visão de mundo e na missão de vida: quem busca o sucesso vive para si e desconsidera o serviço ao próximo como sendo a principal razão para existir. Talvez até alguém possa dizer que tem buscado o sucesso e o reconhecimento, mas isto não lhe tem levado a uma vida sufocante e estressada. Pode ser, mas com certeza quem se inclui neste caso não poderá afirmar que tem dedicado boa parte do seu tempo para ser solidário e prestadio. O que mais importa não é que a vida esteja mais, ou menos, tranqüila ou estressante, mas que Deus nos criou e nos salvou para que nós sirvamos. Nossa visão de mundo, como cristãos, tem que ser a de vivemos para o cuidado alheio. Nossa missão e razão de vida estão fora de nós mesmos, estão no outro, estão no amparo, estão na doação, na diaconia. Quem busca o sucesso não só não terá tempo para viver as coisas boas da vida, mas, o que é pior, não terá tempo, disposição e vontade para servir ao próximo. Isto nos retorna ao quadro narcisista, hedonista e triunfalista já citados. Isto nos torna pessoas doentes. Assim, quem usa o seu tempo e sua vida primordialmente para si, não terá tempo nem vida pra viver e muito menos para doar. Ao contrário, quem abre mão do sucesso, quem busca uma vida simples onde tão somente as necessidades são analisadas quanto a sua realidade e são supridas dentro de uma lógica modesta, moderada e sóbria, este sujeito descobrirá tempo para viver muito melhor e para se colocar em disponibilidade para o favor alheio. Na verdade, quem se dispõe a enxergar ao outro, passa a enxergar a vida de modo muito mais altruísta, mas abnegado, suas demandas serão muito mais simples e humildes, pois seus olhares estarão abertos para ver o mundo como um campo que precisa urgente de ajuda e não como um teatro para a realização e satisfação pessoal. Então, voltando ao tema, diga não ao sucesso, dizendo sim a vida simples e ao serviço.