Archive for the ‘Ética’ Category

Os pobres e a tragédia no escanteio.

terça-feira, maio 18th, 2010

     Há ainda um soluço contumaz, expressão de um sofrimento nostálgico, de uma dor que se prolonga em uma penumbrosa quietude. Penso naqueles afetados de modo funesto pela tragédia que houve em Niterói, minha cidade natal, e que precisam enfrentar a dor de ausências tão amadas e de se recobrirem de forças para continuar a vida, agora árdua e, se não sem, com pouca graça.

     Resolvi falar sobre isto, pois sei o poder que a lista do Dunga exercerá sobre nossa nação roubando a atenção de todos e deixando a tragédia para um escanteio que ninguém quererá bater. Os que sofreram a tragédia estão à procura de vozes que falem com eles e por eles, pois a paixão nacional já se desponta – o pé já está no ponto do chute – e já se vê todo o embevecimento que uma bola, 22 pés e um quadrado verde causam. Mas, quero convidá-los a entrarem em outro campo comigo: que graça pode ter uma copa se todas as partes de uma casa se foram com todos os que ali jogavam, brincavam e torciam…

     Então, quero falar da tragédia, ainda que saiba do risco de muitos já estarem cansados do tema e, por isso, serão tentados a pararem por aqui a leitura. Tente prosseguir e você verá que, na verdade, não irei falar de tragédia, mas de esperanças…

     Sei que algumas casas foram doadas e alguns receberam um aluguel social. Sei ainda de muitas doações feitas e até grandes quantias foram destinadas à cidade pelo governo. Ainda assim tenho algumas inquietações. Uma delas é quanto esta terrível desconfiança de que o dinheiro e demais doações destinados ao município serão bem administrados. Como eu gostaria de acreditar nisto, mas não acredito. Há uma história – nefasta e revoltante – por trás destes homens públicos que não nos deixa confiar neles. Seus narizes estão por demais ocupados em alucinações e desvarios e suas mãos tão sujas de uma lama invisível que não podem mesmo serem vistos como íntegros. A cidade está falida. A vida está em derrocada e se torna inviável, pois a confiabilidade social e política estão solapadas. Este sim é um jogo sujo!

     Ainda me inquieta algo que tenho aprendido: o pobre, o miserável é invisível. Como nós, que vivemos sobre os firmes alicerces de nosso comodismo, não fomos capazes de enxergar tão anunciante tragédia? Estava tudo ali: os pobres em suas frágeis casas – os pobres sem ter outro lugar para ir não poderiam mesmo prever sua tragédia e, em prevendo, só lhes restaria a outra tragédia de não ter para onde ir. Mas nós, como não vimos? E o pior: temo que já estejam voltando a ficarem invisíveis mesmo ainda estando ali – os pobres – diante de nós, ao lado de nosso campo.

     Também me inquieta esta solidariedade que brota somente na tragédia. Uma solidariedade episódica pode não passar de um esvaziar de despensas e guarda roupas… Mas, solidariedade é outra coisa: é chorar junto, é estar junto e continuar junto, é sofrer com e manter segura a mão do que sofre. A doação pode ser um bom começo, mas é pouco. As coisas acabam e precisam ser repostas e a dor, que não acaba, precisa continuamente ser amparada, precisa de ombro – uma escora que permite a vida prevalecer nas avalanches. Sim, é fácil doar, pois alivia a consciência e nos orgulhamos de nós mesmos quando fazemos isto, mas não irá resolver de fato. O pobre continuará invisível ou talvez até tenha uma visibilidade indesejável quando o que se espera é sua invisibilidade.

     Ser solidário tem ainda outro lado: é emprestar-lhes – aos pobres, calados por sua própria condição – nossa voz, nosso brado, nosso grito, nossa revolta, nosso protesto. Assim, ser solidário não é fazer doação, mas antes, é adoção. Adotar os que carecem de acolhimento. Somos-lhes solidários se brigamos por eles junto ao poder público, se deixamos claro a este que não terá mais o nosso voto, que este será anulado enquanto não encontrarmos alguém que o honre trazendo dignidade aos que não a tem. Seremos solidários se soubermos forçar as autoridades constituídas a serem justas no cumprimento da lei colocando a todos ao abrigo de suas necessidades. Temos de ir às ruas, brigar, gritar, reclamar, fiscalizar o poder público, votar com consciência e cobrar suas ações. Estes, os que votamos, devem saber de nossa decisão: ‘Vamos ficar de olho em vocês: Prefeito, Prefeitinhos, Secretários e que tais. Queremos saber o que farão com nosso dinheiro – o dinheiro público – onde gastarão, com quem, de que forma. Temos direito a esta prestação de contas e vocês terão de nos dar’. Disse que falaria de esperanças.

     Minhas esperanças são estas, então: que sejamos mais sérios e criteriosos na escolha de nossos governantes. Esta casta espúria há de ceder lugar a gente honesta e capaz. Ainda espero ver os pobres e necessitados sendo vistos ali, onde estão para serem dignificados. Vê-los ou não é uma escolha e atendê-los é o que definirá o quanto valemos nesta vida. Se não vê-los coloca-os em pleno desvalor, coloca-nos a nós, os cegos, no rol dos desprezíveis.

Minha esperança final é que este simples texto nos torne, a mim e a você,  pessoas um pouco melhores em nossas visões e escolhas.

Até.

Vandi

Deixemos de coisas e cuidemos da vida (da nossa e dos que precisam).

Uma Igreja aberta a todos, mas não a tudo (2a parte)

sexta-feira, setembro 4th, 2009

“Uma Igreja Aberta A Todos, Mas Não A Tudo” (2ª parte)

Já discutimos sobre o pensamento de que a igreja deve ser aberta a todos. Porém, antes de entrarmos na segunda parte do tema quando pensaremos sobre o que pode e o que não pode entrar na igreja, sobre o que tem entrado e não deveria, e sobre o que não tem entrado e deveria entrar, gostaria de fazer uma simples observação. Quando me refiro à igreja quero deixar claro que meu pensamento está voltado para gente, para pessoas. Não penso tanto em instituições e seus CNPJs, mas em gente que, ao se aglomerar, forma uma comunidade que deve expressar a vontade e o amor de seu Deus. Penso em mim, em você, no outro, em nós que somos a igreja.

Quero, eu mesmo, questionar o meu título. Deveria a igreja ser aberta a todos, mas não a tudo? Sim e não. Não gosto muito deste tipo de resposta, mas aqui caberá bem. Vejamos, pois. Quando a igreja deve ser aberta a tudo? Bem, se entendermos este “tudo” como tudo o que está inserido na vida das pessoas, tais como, seus pensamentos, seus costumes, seus vícios, suas mazelas, suas esquisitices, seus crimes, suas taras, suas idiossincrasias, suas heresias e suas virtudes, sim, elas devem entrar na igreja com tudo o que lhes pertencem e, a igreja (eu, você, todos nós), deve se mostrar aberta e capaz de recebê-las tal qual chegam. Logo, em um primeiro momento, a priori, a igreja deve, sim, ser aberta tudo, tudo o que vem junto em todos os que chegam. Que todos venham, então, como realmente estão e como realmente são! Que todos se assumam diante de Jesus para que possam experimentar o poder transformador de sua graça.

Mas, quando a igreja não deve ser aberta a tudo? Quando as pessoas vierem para a igreja, com tudo o que são e não são, e não quiserem submeter à vontade boa perfeita e agradável do Senhor aquelas coisas que são contrárias à sua palavra. A estas, a igreja não pode se manter aberta, pois a igreja é de Jesus e quem não quiser se submeter à sua amável vontade deve ouvir da igreja, de nós, que a igreja não é aberta, neste sentido, a tudo.

Então, se alguém for contrário à vontade de Deus conforme está revelada em sua Palavra deve sair da igreja? Não, é claro que não, mas deve haver um respeito mútuo: o discordante não deve ser acintoso e a igreja deve ser tolerante. A igreja é lugar de doentes, de errados e errantes, de hereges e pecadores que precisam do amor e da graça de Jesus. Se a igreja não for aberta a estes, como conhecerão e experimentarão a Jesus? Aliás, se alguém pensa não se encaixar em uma das rubricas que acabei de citar, nem deveria estar na igreja, pois a igreja foi construída para nós, os que nos sabemos não sãos.

Lembremo-nos que Jesus quer sua casa cheia, e por isto convidou aos que vivem à margem das ruas da cidade: os pobres, os aleijados, os cegos, os mancos, os fedorentos e sujos valados, os excluídos e, se me permitem assim falar, os ferrados na vida, para participarem de sua ceia, de sua comunhão, de nossa comunhão, pois os quer tornar novas criaturas.

Sejamos francos: estamos abertos a todos?  Estamos abertos a tudo? A quem temos convidado para nossa ceia, para a comunhão?

Que nossos corações se convertam à acolhedora misericórdia de Deus que nos aceitou como somos e nos está transformando no que Ele é.

Vanderley

Uma igreja aberta a todos, mas não a tudo. (1a parte)

quinta-feira, agosto 27th, 2009

          Acabo de participar de um debate sobre o tema “Uma igreja aberta a todos, mas não a tudo” e gostaria de expor algumas idéias sobre isto. Espero que meus amigos debatedores me desculpem por não citá-los de modo específico, mas fui anotando as ressonâncias do que ouvia, articulando idéias próprias e, agora, vou desenvolver tudo isto.

          Antes de pensar: “lá vem mais um texto falando (mal) de igreja”, permitam-me uma lembrança inicial: amo a igreja de Jesus e não quero falar sobre ela, mas para ela e o faço pela razão de amá-la e por acreditar que ela pode e deve ser melhor.

          Pois bem! O primeiro pensamento que me vem é: deveria a igreja ser aberta a todos? Parece que todos concordamos, ao menos na teoria, que sim. Se pensarmos a partir do convite feito por Jesus aos homens para que o sigam, perceberemos que o mesmo era feito a todos: “E dizia à todos: se alguém quer vir após mim… “ (Lc 9:23). Seu mandamento para que seus discípulos pregassem de si também foi para o fizessem à todos: “Ide por todo o mundo…” (Mc.16:15).

          Bem, se há algum lugar no mundo capaz de aceitar todo tipo de gente, de qualquer lugar ou tribo, este é a igreja. Isto é lindo! Que verdade maravilhosa! Mas, que mentira isto também pode ser! A mentira não estaria na afirmação, que é mesmo linda e verdadeira. A mentira pode estar no que acontece de fato. Afinal, não tem sido a igreja um lugar para os iguais, para os “mesmos”? Nossos cultos, nossas mensagens, nossa liturgia, nossas músicas ou louvores levam em consideração que público? A linguagem que usamos, a forma litúrgica que lançamos mão, é para alcançar e tem alcançado a quem?

          Pergunto-me se não estamos completamente descontextualizados. Lembro-me daquela frase: “fiz-me tudo para com todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns”. Como a frase é do apóstolo Paulo (I Co 9:22), creio que devemos seriamente refletir, auto-criticamente, sobre ela, não acham? Tenhamos coragem de sair de nossos engessamentos litúrgicos. Que tenhamos a ousadia santa de mudar nossos cultos comunitários, tantas vezes longuíssimos, chatííííssimos, religiosíssimos e superficialíssimos. E, por outro lado, tantas vezes, espetaculosíssimos, emocionalicíssimos, showsíssimos ou mesmo mercantilíssimos. Sempre levando em conta, sim, que tudo deve ser feito para glória de Deus, mas de modo tal a facilitar a participação e compreensão dos presentes, sejam estes os da fé, e principalmente, o que deveria ser nossa principal preocupação, os não adeptos, os ainda não conversos.

          Fique, então, com esta pergunta: nossos cultos, com tudo o que neles acontece, têm revelado a insondável beleza do evangelho aos que dele participam, ou por se incluírem em um dos “íssimos” acima têm mais afastado que edificado as pessoas? (Lembremos que este afastamento nem sempre se dá fisicamente, pois as pessoas continuam presentes, seja por costume ou por escassez de programas melhores, mas seus corações ficam duros, frios, ou pior, mornos, quando Jesus sai do centro, quando sua mensagem não é exposta de modo  vivo, quando sua mensagem da cruz cede espaço a outras mensagens, quando nossas almas não ardem mais em sua presença).

          Contudo, ser aberta a todos não significa, necessariamente, ser aberta a tudo. Mas, isto fica pra o próximo post quando falaremos da segunda parte do tema: uma igreja que (não) é aberta a tudo. Pensaremos sobre o que pode e o que não pode entrar na igreja, o que tem entrado e não deveria, o que não tem entrado e deveria entrar. Até lá!

Viver: uma lufada de vento ou uma experiência perene de amor (parte 2)

quinta-feira, agosto 20th, 2009

Viver: uma lufada de vento ou uma experiência perene de amor (parte 2)

    Na primeira parte desta nossa reflexão sobre o personagem central do capitulo 2 de Eclesiastes, falamos que transformamos a vida em uma lufada de vento, a despeito de nossas conquistas e realizações, quando temos uma visão narcísica, romântica e hedonista da vida.

    Vejamos, agora, o quarto e último ponto desta reflexão

4) Este homem tinha uma visão dissimulada da vida.

       Este ponto é mais sutil e subjetivo. Vejamos então: a despeito de eu mesmo levantar algumas críticas sobre o personagem do texto, devemos destacar que ele tinha várias virtudes. Afinal, quem consegue chegar aonde ele chegou precisa de virtudes para isto. Ele deveria ser um homem de visão, consciente do que queria e provido das estratégias corretas para concretizar seus alvos; ele deve ter sido um homem diligente e dinâmico, pois uma pessoa sem iniciativa não faria o que ele fez; ele deve ter sido um bom líder, pois se cercara das pessoas certas para fazer tão bem o que se propusera. Talvez um homem carismático, de ótimo gosto artístico, pois tinha os melhores cantores à seu dispor e deveria ter uma boa saúde e vitalidade, pois, afinal, tinha muitas mulheres… Mas, talvez, tenham sido justamente as suas virtudes que se configuravam como a principal ameaça ao que poderia trazer sentido a sua vida, pois muitas vezes, são as nossas virtudes que escondem os nossos defeitos. Ou seja, usamos nossa luz, para esconder nossas sombras. Tornamos, assim, nossa luz em trevas. E, quando nossa luz são trevas, que grandes trevas são !!!

    Consideremos a dialética : amor versus desamor. Acredito que quando pensamos nestes dois conceitos um em contraposição ao outro, pensamos quase que imediatamente em um quadro com dois pólos distintos e bem definidos: de um lado o amor e do outro o desamor, como sendo sua antítese. Mas, o desamor nem sempre aparece nesta forma antitética ao amor. Aliás, o termo desamor por si mesmo não indica necessariamente uma confrontação ao amor, mas por seu prefixo revela-se, um enfraquecimento ou adoecimento do amor. Vou preferir ficar com idéia do desamor como uma dissimulação do amor, ou seja, um desamor camuflado pelo amor.    

    Assim, como o homem de nossa história, dissimulava o real sentido de sua vida com suas virtudes, ou seja, suas virtudes encobriam suas faltas, nós também podemos fazer de nossas virtuosas conquistas e saberes uma excelente estratégia para camuflar nosso desamor. Deste modo, a honestidade, a verdade, os deveres sociais cumpridos, o cuidado familiar, a vida profissional desenvolvida com dignidade, estas e outras virtudes podem nos dar a sensação de que já estamos fazendo e sendo o suficiente. Nos trazem a consciência de que nada mais nos é necessário, nada mais nos falta para dignificar e valorar a vida. Creio que a pior espécie de desamor é justamente aquele que é dissimulado, encoberto pelas virtudes. É este tipo de desamor que sutil e sorrateiramente nos aprisiona sem que nos percebamos como suas presas. Afinal, podemos pensar, “trabalho com honestidade, não faço mal a ninguém, dou o dízimo e ainda ajuda missões e instituições. Tudo lá em casa vai bem, e está tudo em paz”, então, to bem na vida!. Este é o pior tipo de desamor, pois não ganha este nome, mas está coberto de uma perversidade cruel onde nossa paz e saúde estão alienadas da dor alheia, do sofrimento do outro, conformada com a miséria que nos extende as mãos, mas encontram mãos ocupadas demais com nossas muitas virtudes.

    Mas, que amor é este que não me locomove a sofrer junto? a estar junto? a chorar junto? É possível mesmo um amor que não se solidariza? Que amor é este que me faz ter conquistas e realizações que não contemplam o benefício do outro? Que amor é este que não comunga, não compartilha? Que amor é este que não economiza para atender ao outro, qualquer outro que seja? Que amor é este que se acomoda ao ver a pobreza e a necessidade alheia? Que amor é este que foge do sacrifício, cujo limite é o sofrimento? Este amor é o desamor travestido de virtudes.

    Querem saber uma virtude que dissimula o desamor de modo excelente? a espiritualidade. Hoje, os espirituais são os que vivem uma espiritualidade monástica, contemplativa, “soletudinária”, mas que está totalmente alheia ao horário do rush. Precisamos de uma espiritualidade que nos ajude a atravessar o congestionamento, que nos ajude a dar glórias durante as quinze horas de jornada de um trabalho árduo e pessimamente remunerado, que me ajude a enxergar a Deus e Seu amor no inevitável estresse do dia a dia sem sucumbir com este. Talvez estejamos apregoando as virtudes de modo tal que o desamor sequer seja reconhecido e, se o é, logo, logo, será dissolvido pelas compensações que nossas virtudes nos trazem.

    O nosso personagem bíblico no fim de seu texto, chega a conclusões muito valiosas. Após considerar muitas outras coisas realmente sabias e verdadeiras, sempre sob sua ótica realista ainda que desprovida de otimismo, ele afirma: Cap. 12:13: “De tudo o que se tem ouvido, a suma é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo homem”. A síntese que acredito estar presente em seus últimos versos é a de que somente seremos capazes de creditarmos um sentido saudável as coisas da vida, as conquistas da vida, as nossas vivências, sejam estas mais simples ou mais complexas, se estivermos inseridos em uma sincera e íntima experiência do perene amor de Deus. É na vivência do temor a Deus, uma relação pautada na certeza de que Ele é Senhor, mas um Senhor que amou-nos até as últimas conseqüências, pois demonstrou isto ao morrer na cruz por nós – é na vivência deste temor, expresso por nós acima de tudo por meio de um amor reverente, obediente e dinâmico – posto que deve estar sempre pronto a servir – que a vida ganhará significado, sentido, segurança e conforto. Temendo a Deus é que cada experiência prazerosa, cada realização, toda alegria vivida, cada vivência em nosso cotidiano, não cairão no vazio, não trarão frustração, pois tudo o que me acontecer, tudo o que eu realizar, tudo o que eu for capaz de viver será visto como fruto da graça deste amoroso Deus e trará como resposta um sincero sentimento de gratidão pela vida: 

                                     “Que bom, meu Deus, é viver e é te ter como fonte da vida. Que bom é poder considerar que minha vida não é uma lufada de Vento, mas uma experiência perene de teu amor por mim”. Deus nos abençoe.

Viver: uma lufada de vento ou uma experiência perene de amor (parte 1).

quinta-feira, agosto 20th, 2009

Viver: uma lufada de vento ou uma experiência perene de amor (parte 1)

(Palestra ministrada na abertura do Congresso Nacional do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos – CPPC. Penedo. Abril/2009)

            O livro de Eclesiastes nos apresenta um homem muito bem sucedido no que diz respeito às expectativas e projetos aos quais se lançou. Ele diz que empreendeu grandes obras, edificou casas, plantou vinhas, jardins e pomares, fez açudes para regar seu bosque particular, que possuiu uma fazenda cheia de empregados, de bois e ovelhas como ninguém jamais obtivera em sua cidade. Ainda afirma que tinha uma imenso tesouro, tinha cantores particulares e muitas mulheres disponíveis para sí. Era ainda um homem sábio e capaz de satisfazer a todos os seus desejos.

Antes de começarmos a morrer de inveja, este homem, porém, ao considerar tudo o que fizera e possuíra chega à conclusão de que tudo era como um sopro, uma bolha, um vapor, uma lufada de vento – tudo isto era vaidade. Em suas próprias palavras:

 

“considerei todas as coisas que fizeram as minhas mãos, como também o trabalho que eu, com fadigas, havia feito; e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento, e nenhum proveito havia debaixo do sol” (2:11)

 

            A pergunta que me faço é por quê um homem tão bem sucedido tem a visão de que sua vida não tem sentido, não tem valor, é efêmera, é vaidade. Ele nos ensina que pode se conseguir tudo na vida sem que se sinta cheio de vida, de gozo. O sucesso não nos impede de, no final de tudo, fazer com que a vida seja considerada como uma lufada de vento, pode não gerar satisfação real.

            Quando então, a despeito das conquistas e realizações, transformamos a vida em uma lufada de vento? O texto nos aponta alguns caminhos.

 

1)    Este homem tinha uma visão narcísica sobre a vida.

 

Em sua narrativa o nosso personagem utiliza a expressão “para mim”: ‘edifiquei para mim’, ‘plantei para mim’, ‘fiz pomares para mim’, ‘fiz açudes para mim’, ‘amontoei prata e outro para mim’. Este homem fizera tudo apenas para si. Assim, quem vive sem pensar no próximo irá perceber, cedo ou tarde, que sua vida é vazia, é nula, é vaidade. Quem vive sem saber desprender amor ao outro, não terá amor pra enxergar a própria vida. Se não amar ao outro, “desamo” a vida, “desamo” a mim mesmo. A vida será mesma uma bolha que foi soprada e só está esperando o tempo de estourar, só que talvez não tenha sequer alegrado criança alguma.

 

            2) Este homem tinha uma visão romântica sobre a vida.

 

Viver para ele era uma caminhada em busca da felicidade. Isto soa romântico e poético, não é mesmo? O fato é que ele pensava apenas na felicidade pessoal. E ainda pensou que esta poderia ser achada na própria vida desde que fosse bem vivida. Ledo engano!

Contudo, não nos apressemos, pois não vou dar uma contrapartida sobre o que de fato pode nos fazer felizes. Falar de felicidade é um assunto muito desconfortável para mim, pois não creio que é para isto que fomos “soprados”, não creio que a fé cristã sequer prometa felicidade. Há promessas sim, de vida abundante (João 10:10), paz, segurança, sentido de missão pra vida. Talvez seja esta a visão cristã de felicidade.

O certo é que não podemos esperar dos prazeres e conquistas da vida o que estas não têm o poder de nos dar, pois em si mesmas estas coisas são apenas vaidade.

Na verdade, a garantia mesmo que a fé cristã nos dá é a de sermos amados. O cristianismo nos garante uma relação perene de amor – um amor incondicional e inarredável.

Assim, eis um caminho para não olharmos a vida como uma bolha prestes a estourar: compreender que toda e qualquer conquista e realização sem a experiência deste amor, será vazia, será bolha de sabão ao relento, será vaidade.

           

            3) Este homem tinha uma visão hedonista sobre a vida

 

Ele pensou que poderia viver sem reconhecer os limites necessários ao prazer e aos desejos e paixões (V. 10).

 

Eu não posso fazer tudo o que quero e desejo. Aliás, posso até tentar, o que não posso é escolher as conseqüências de minhas escolhas. Mas, em linhas gerais devo procurar evitar:

- tudo o que não glorifica a Deus e dificulta minha comunhão com Ele

- tudo o que prejudica ao próximo e dificulta minha comunhão com este

- e tudo o que me prejudica e dificulta minha comunhão comigo mesmo.

 

Era um homem sábio, mas que não soube usar esta sabedoria, porque  esta deve estar rendida e norteada na relação de amor com Deus/Pai. Não há, definitivamente, sabedoria sem uma relação de amor que a sustente.  O começo da sabedoria está no amor/temor a Deus.

(Continuaremos esta reflexão, no outro texto, ok? Não deixe de lê-lo, pois falaremos sobre o que acontece quando temos uma visão dissimulada da vida – quando dissimulamos o desamor em amor).