Homem De Deus? Como Assim?
sexta-feira, agosto 14th, 2009HOMEM DE DEUS? COMO ASSIM?
“Fulano é um Homem de Deus”. Esta é uma frase comumente dita sobre alguém em quem encontramos algo que nos tenha impressionado: um discurso mais eloqüente ou inteligente, um ministério de alguma forma impactante, uma performance mais eficaz quanto ao feedback. Ás vezes, dizemos que homem de Deus é aquela pessoa de aparência mais humilde, com ombros curvos e olhar sorumbático. Obviamente, o mesmo vale para a frase “esta é uma mulher de Deus”, mas para simplificar vamos usar a expressão “homem de Deus” com um sentido que engloba ambos os gêneros. Vemos que muita coisa se pode dizer sobre isto, mas, na verdade, um homem de Deus se faz de modo muito simples. Um homem de Deus, para darmos uma definição objetiva e rápida, é um homem que pertence a Deus e que deve procurar viver de modo condigno com esse status. Se sou de Deus, vivo para Ele, e isto me torna também um homem de Sua Palavra – um homem da Palavra, que vive por meio de Sua Palavra e que, por isto, tem palavra. Diante disto, podemos nos aprofundar um pouco mais no tema. Assim, para ser um homem de Deus, eu preciso antes de tudo pertencer a Ele. Vejamos como se dá a construção dessa relação de pertencimento. Para pertencer a Deus é necessário tão-somente e primeiramente crer nele. Mas este crer não é apenas um acreditar em sua existência, caso contrário, quase toda a humanidade deveria ser considerada como sendo composta de gente de Deus e de Sua palavra. É claro que toda a humanidade pertence a Deus, mas não no sentido em que estou me referindo aqui, de um pertencimento relacional íntimo e responsivo embasado em sua própria palavra. O conteúdo deste crer e, por conseguinte, deste pertencimento a Deus, está claramente expresso no conceito neotestamentário de reconciliação. Quando Paulo afirma que “Deus reconciliou-nos consigo mesmo por meio de Cristo” e que “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo” (2 Co 5:18,19), nos dá a idéia de um reatamento relacional, de uma reconstrução da convivência na forma paterno/filial cujo efeito gerador e qualificador da vida vemos expresso em outra carta paulina: “Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo”. (Efésios cap.2). Assim, sou de Deus quando creio que Ele reconciliou-me consigo doando-me vida em Cristo, tudo isto como fruto de seu incondicional amor. E este amor e esta salvação são irrevogáveis, são inarredáveis, são eternos. Então, crer na vida e na obra de Jesus Cristo, em seus significados singularmente salvíficos, faz de mim um cristão, torna-me um homem de Deus. Mas devemos ir além. Este crer jamais poderá ser desvinculado da práxis, ou seja, tem necessariamente uma implicação prática na vida. Assim, para ser um homem de Deus, preciso não apenas nele crer, mas encarnar sua palavra em minha vida. Jesus deixou isto bem claro quando afirmou: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e siga-me” (Lucas 9:23). Assim, o cristão é aquele que encarna a fé cristã. Se crer e seguir a Jesus me torna um cristão, fica a questão: como se dá esse processo de tornar-se um cristão? Ser cristão, na verdade, é um processo onde se dá uma reconstrução da vida humana em pelo menos três direções ou perspectivas: essencial, prática e existencial. A primeira perspectiva, a essencial, diz respeito à afetação ocorrida em minha natureza humana. É aqui, de fato, que tenho revelada a minha constituição mais fundamental quanto a ser um Homem de Deus. Dentre outros, vou separar dois conceitos que muito bem expressam esta idéia: 1 – Sou justificado. Quando lemos em Rm 5:1: “Justificados, pois, pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo”, devemos entender que saímos da condição de culpados para perdoados. Já não é lei alguma que rege nossas vidas, mas a Graça e a misericórdia de Deus. Se são culpas, seja no sentido legal, seja no moral, que regem e atormentam nossas vidas, então, ainda nos falta compreender ou vivenciar a fé cristã, pois ela é libertadora e justificadora. 2 – Sou filho de Deus. Em Rm 8:15, temos: “Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes com temor, mas recebestes o espírito de adoção, pelo qual clamamos: Aba, Pai!” A fé cristã, ao ser compreendida e vivida, gera, por esta razão, conforto e segurança. Dá significado para a vida e constrói identidade: eu sei o que sou: sou filho de Deus. Se são medos que me fazem viver o que creio, então, ainda me falta compreender ou vivenciar a verdadeira fé cristã, pois nela o espírito que rege é o de adoção, que me dá a constante certeza de que sou amado filho de Deus. A segunda perspectiva é a prática, ou seja, quanto à afetação ocorrida em meu comportamento, em meu modo de vida. É aqui que expresso ser realmente um Homem da Palavra, pois agora sou um discípulo: passo a viver para seguir Jesus. O meu modo de vida não terá uma autonomia absoluta, mas será sempre relativa “a vida de Jesus. Jesus será o padrão, a referência, a direção, o princípio. Assim, o discípulo precisa compreender duas questões: 1o) O discípulo reproduz discípulo: é o diferencial missionário. Seja onde e quando for, minha vida deve expressar que sou de Cristo, deve torná-lo conhecido. Não há melhor razão para se viver do que esta. Se não faço isto, não compreendi a mensagem de Jesus. Se não estou preocupado em passar esta verdade avante, então não a compreendi direito, pois como posso guardar este imenso tesouro apenas comigo?; 2o) O discípulo reproduz misericórdia: é o diferencial diaconal do serviço. A mesma misericórdia que o alcançou ele quer tornar realidade na vida dos outros. Na verdade, o discípulo não vive mais para si mesmo, mas vive para servir. Temos negligenciado demais esta verdade. Desviamos nossa mente e ouvidos das palavras de Jesus quando nos advertiu severamente ao dizer:: “Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai. Possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me acolhestes; estava nu, e me vestistes; adoeci, e me visitastes; estava na prisão e fostes ver-me. Então os justos lhe perguntarão: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? Quando te vimos forasteiro, e te acolhemos? ou nu, e te vestimos? Quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos visitar-te? E responder-lhes-á o Rei: Em verdade vos digo que, sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a mim o fizestes.” (Mt 25:34) Se não sirvo, se não alimento os famintos, se não sacio os sedentos, se não acolho o estrangeiro, se não visto os nus, se não amparo os enfermos e prisioneiros, ainda não compreendi a mensagem de Jesus, ou simplesmente estou sendo negligente para com ela. O terceiro diferencial é o existencial, no sentido de um modo de ser próprio do homem. Vou subdividir este diferencial em dois modos. O primeiro é o existencial moral. As referências morais e éticas que conduzem toda a minha vida, meus conceitos, minhas decisões, devem estar pautadas na mensagem de Jesus expressa em toda a Bíblia. Deste modo, se não sou justo e misericordioso com o que pago a meus empregados, se não trato o meu patrão com dignidade e respeito, se não sou honesto com meus impostos, se não há verdade no que falo, sendo a mentira a regedora de minhas relações, se os meus negócios e o modo como me porto na sociedade não estiverem embasados em Cristo, então, não o compreendi, não posso auto-denominar-me cristão, pois um cristão procura viver de modo digno e coerente com a vida e os ensinamentos de Cristo. O segundo modo é o existencial psicológico: “Pelo que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo.” (I Co 5:17). O cristão tem diante de si um recurso inigualável para a transformação de sua mente: a graça curadora de Deus, a qual acessamos pela fé. É bem verdade que muitas pessoas tem se apresentado como cristãs, e se mostram verdadeiras antíteses do que aqui afirmo. Para mim, elas podem se dizer qualquer coisa, menos cristãs, pois a fé cristã gera saúde, gera equilíbrio, gera sensatez. Concluindo, antes de fazer a afirmação de que este ou aquele é um homem de Deus, precisamos perceber se estamos usando os critérios corretos para esta afirmação, pois estar na mídia, ter boa eloqüência, ter carisma, com um ‘mis-en-scène’ espalhafatoso, ter uma aparência piedosa, um estereótipo tradicional ou de vanguarda, um linguajar coberto de jargões ou mesmo culto, produzir textos de boa argumentação, fazer parte da intelligentsia evangelical, ser da ala do silêncio (os meditacionistas) ou do barulho (os pentecostalistas), nada disso torna ninguém um homem de Deus, mas antes e tão-somente crer em sua obra de salvação e procurar encarnar sua Palavra como um simples discípulo. Deus nos abençoe e nos ajude a compreender e a viver a verdadeira fé cristã, a sermos de fato Homens de Deus que amam e vivem por meio de sua Palavra. Que Ele nos ajude a sermos de fato cristãos.
