Archive for the ‘Missão’ Category

Uma Igreja aberta a todos, mas não a tudo (2a parte)

sexta-feira, setembro 4th, 2009

“Uma Igreja Aberta A Todos, Mas Não A Tudo” (2ª parte)

Já discutimos sobre o pensamento de que a igreja deve ser aberta a todos. Porém, antes de entrarmos na segunda parte do tema quando pensaremos sobre o que pode e o que não pode entrar na igreja, sobre o que tem entrado e não deveria, e sobre o que não tem entrado e deveria entrar, gostaria de fazer uma simples observação. Quando me refiro à igreja quero deixar claro que meu pensamento está voltado para gente, para pessoas. Não penso tanto em instituições e seus CNPJs, mas em gente que, ao se aglomerar, forma uma comunidade que deve expressar a vontade e o amor de seu Deus. Penso em mim, em você, no outro, em nós que somos a igreja.

Quero, eu mesmo, questionar o meu título. Deveria a igreja ser aberta a todos, mas não a tudo? Sim e não. Não gosto muito deste tipo de resposta, mas aqui caberá bem. Vejamos, pois. Quando a igreja deve ser aberta a tudo? Bem, se entendermos este “tudo” como tudo o que está inserido na vida das pessoas, tais como, seus pensamentos, seus costumes, seus vícios, suas mazelas, suas esquisitices, seus crimes, suas taras, suas idiossincrasias, suas heresias e suas virtudes, sim, elas devem entrar na igreja com tudo o que lhes pertencem e, a igreja (eu, você, todos nós), deve se mostrar aberta e capaz de recebê-las tal qual chegam. Logo, em um primeiro momento, a priori, a igreja deve, sim, ser aberta tudo, tudo o que vem junto em todos os que chegam. Que todos venham, então, como realmente estão e como realmente são! Que todos se assumam diante de Jesus para que possam experimentar o poder transformador de sua graça.

Mas, quando a igreja não deve ser aberta a tudo? Quando as pessoas vierem para a igreja, com tudo o que são e não são, e não quiserem submeter à vontade boa perfeita e agradável do Senhor aquelas coisas que são contrárias à sua palavra. A estas, a igreja não pode se manter aberta, pois a igreja é de Jesus e quem não quiser se submeter à sua amável vontade deve ouvir da igreja, de nós, que a igreja não é aberta, neste sentido, a tudo.

Então, se alguém for contrário à vontade de Deus conforme está revelada em sua Palavra deve sair da igreja? Não, é claro que não, mas deve haver um respeito mútuo: o discordante não deve ser acintoso e a igreja deve ser tolerante. A igreja é lugar de doentes, de errados e errantes, de hereges e pecadores que precisam do amor e da graça de Jesus. Se a igreja não for aberta a estes, como conhecerão e experimentarão a Jesus? Aliás, se alguém pensa não se encaixar em uma das rubricas que acabei de citar, nem deveria estar na igreja, pois a igreja foi construída para nós, os que nos sabemos não sãos.

Lembremo-nos que Jesus quer sua casa cheia, e por isto convidou aos que vivem à margem das ruas da cidade: os pobres, os aleijados, os cegos, os mancos, os fedorentos e sujos valados, os excluídos e, se me permitem assim falar, os ferrados na vida, para participarem de sua ceia, de sua comunhão, de nossa comunhão, pois os quer tornar novas criaturas.

Sejamos francos: estamos abertos a todos?  Estamos abertos a tudo? A quem temos convidado para nossa ceia, para a comunhão?

Que nossos corações se convertam à acolhedora misericórdia de Deus que nos aceitou como somos e nos está transformando no que Ele é.

Vanderley

Uma igreja aberta a todos, mas não a tudo. (1a parte)

quinta-feira, agosto 27th, 2009

          Acabo de participar de um debate sobre o tema “Uma igreja aberta a todos, mas não a tudo” e gostaria de expor algumas idéias sobre isto. Espero que meus amigos debatedores me desculpem por não citá-los de modo específico, mas fui anotando as ressonâncias do que ouvia, articulando idéias próprias e, agora, vou desenvolver tudo isto.

          Antes de pensar: “lá vem mais um texto falando (mal) de igreja”, permitam-me uma lembrança inicial: amo a igreja de Jesus e não quero falar sobre ela, mas para ela e o faço pela razão de amá-la e por acreditar que ela pode e deve ser melhor.

          Pois bem! O primeiro pensamento que me vem é: deveria a igreja ser aberta a todos? Parece que todos concordamos, ao menos na teoria, que sim. Se pensarmos a partir do convite feito por Jesus aos homens para que o sigam, perceberemos que o mesmo era feito a todos: “E dizia à todos: se alguém quer vir após mim… “ (Lc 9:23). Seu mandamento para que seus discípulos pregassem de si também foi para o fizessem à todos: “Ide por todo o mundo…” (Mc.16:15).

          Bem, se há algum lugar no mundo capaz de aceitar todo tipo de gente, de qualquer lugar ou tribo, este é a igreja. Isto é lindo! Que verdade maravilhosa! Mas, que mentira isto também pode ser! A mentira não estaria na afirmação, que é mesmo linda e verdadeira. A mentira pode estar no que acontece de fato. Afinal, não tem sido a igreja um lugar para os iguais, para os “mesmos”? Nossos cultos, nossas mensagens, nossa liturgia, nossas músicas ou louvores levam em consideração que público? A linguagem que usamos, a forma litúrgica que lançamos mão, é para alcançar e tem alcançado a quem?

          Pergunto-me se não estamos completamente descontextualizados. Lembro-me daquela frase: “fiz-me tudo para com todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns”. Como a frase é do apóstolo Paulo (I Co 9:22), creio que devemos seriamente refletir, auto-criticamente, sobre ela, não acham? Tenhamos coragem de sair de nossos engessamentos litúrgicos. Que tenhamos a ousadia santa de mudar nossos cultos comunitários, tantas vezes longuíssimos, chatííííssimos, religiosíssimos e superficialíssimos. E, por outro lado, tantas vezes, espetaculosíssimos, emocionalicíssimos, showsíssimos ou mesmo mercantilíssimos. Sempre levando em conta, sim, que tudo deve ser feito para glória de Deus, mas de modo tal a facilitar a participação e compreensão dos presentes, sejam estes os da fé, e principalmente, o que deveria ser nossa principal preocupação, os não adeptos, os ainda não conversos.

          Fique, então, com esta pergunta: nossos cultos, com tudo o que neles acontece, têm revelado a insondável beleza do evangelho aos que dele participam, ou por se incluírem em um dos “íssimos” acima têm mais afastado que edificado as pessoas? (Lembremos que este afastamento nem sempre se dá fisicamente, pois as pessoas continuam presentes, seja por costume ou por escassez de programas melhores, mas seus corações ficam duros, frios, ou pior, mornos, quando Jesus sai do centro, quando sua mensagem não é exposta de modo  vivo, quando sua mensagem da cruz cede espaço a outras mensagens, quando nossas almas não ardem mais em sua presença).

          Contudo, ser aberta a todos não significa, necessariamente, ser aberta a tudo. Mas, isto fica pra o próximo post quando falaremos da segunda parte do tema: uma igreja que (não) é aberta a tudo. Pensaremos sobre o que pode e o que não pode entrar na igreja, o que tem entrado e não deveria, o que não tem entrado e deveria entrar. Até lá!

Em Busca de Novas Trevas – A Urgência de Uma Nova Lógica Missionária (parte 2)

quarta-feira, agosto 19th, 2009

        Em Busca de Novas Trevas – A urgência de Uma Nova Lógica Missionária (parte 2)

        A missão concede não apenas qualificação a vida, mas é o que lhe concede sentido, pois sem ela se torna absurda. Além do que, é justamente a missão que nos concede uma definição de nossa identidade. Logo, cônscios da missão, passamos a estabelecer uma relação identitária com a vida: eu passo a saber de fato quem sou. Sim, estou afirmando que aquilo que somos esta direta e inarredavelmente condicionado a nossa missão.

      Já vimos muita discussão sobre o ser e o fazer. Alguns priorizam o ser colocando o fazer em um plano secundário. Dizem que o que importa é o que somos. Esta afirmação coloca os valores, os conceitos, a moral, o caráter em primazia sobre nossos atos, só que, por vezes, ficamos estacionados nesta subjetivação simplista da vida. Eu mesmo, muito influenciado pela turma da meditação e da contemplação, já fiz isto. Outros, priorizam o fazer e dizem que o ser será gerado por este e é o fazer que gera vida, pois afinal, a fé sem obras é morta. Neste caso, a consciência da urgência de determinadas práticas é que prevalecem e o que importa é a ação, as obras, o fazer. Mas incorre-se no perigo de um ativismo desenfreado, estéril e vazio, podendo nos levar a ficar paralizados pelo estresse e pela frustração de não ver tudo finalizar conforme esperávamos.

         Eu mesmo já fui muito influenciado pela turma do engajamento político ou dos comprometidos com resultados como sendo a evidência de se estar no caminho certo, o que é um engano, pois Deus tem uma visão bem diferente da nossa quanto aos resultados que devem ser esperados. Ora, na minha percepção atual, o ser e o fazer estão por natureza inseparavelmente ligados. Para mim, esta inerência se torna clara quando Jesus afirma a seus discípulos que eles são o sal da terra e a luz do mundo. Ora, o sal é sal por que salga e salga porque é sal e a luz alumia por que é luz e é luz porque alumia. Assim, o cristão é sal porque salga e salga porque é cristão, e é luz porque alumia e alumia porque é luz. Minha identidade é o que é por causa de minha missão e tenho esta missão por causa do que sou. Porém, a despeito de fazer o que faço (missão) por causo do que sou (um cristão) só terei consciência do que sou se estiver cumprindo a minha missão.

          Brennan Manning afirmou que “a resposta para a pergunta: “quem sou eu? não vem pela auto-análise, mas pelo comprometimento pessoal”, assim, enquanto não estiver comprometido com uma visão que não só compreenda mas direcione toda a vida, não serei capaz de ter uma visão correta sobre minha própria identidade. Acredito mesmo que este era o sentimento e o próprio sentido da vida presentes em Noé e foi por isto que Deus o chamou para recomeçar uma nova história da humanidade. Diz a bíblia que “Noé andava com Deus” (Gn 6:9). Aliás, o texto em gêneseis resume toda a história de Noé assim: Noé era homem justo (atos, o fazer) e íntegro (caráter, o ser) entre os seus contemporâneos: Noé andava com Deus”. Sua escolha não se deu por atos ou ministérios específicos que desempenhava, mas por uma razão de ser contínua: Ele andava com Deus. Seu sentido de missão não era intermitente, não era localizado. Sua missão tinha uma abrangência totalitária quanto ao espaõ e ao tempo. é por isso que Deus lhe diz” reconheço que tens sido justo diante de mim no meio da terra”.

           Também era o este o sentido de vida em Davi, pois sabia-se servo e não rei ante ao seu Deus que o chama de “meu servo Davi”. Ele mesmo se punha assim diante de Deus, como seu servo. Creio que se dele é dito que era um homem segundo o coração de Deus é porque sabia que tinha uma missão de viver para este Deus, para servi-lo. Tomemos Isaías, pois creio que ele só resolveu sua saudável crise existencial quando se lanço a missão de ser um enviado por Deus, tal qual acontecera com João Batista. Mas, assim como João, não se tratava de um envio para se fazer algo específico apenas, mas para se tornar alguém cuja missão de vida jamais se divorciaria de sua própria identidade. Seu er era um ser de um enviado por Deus.

         O melhor exemplo desta visão temos em Jesus Cristo, pois a forma como escolhe para ser conhecido foi a de servo: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir”. Todo o ser de Jesus estava envolvido por esta missão: Servir ao Pai e expressar este serviço amoroso servindo aos filhos do Pai. Esta é a lição que nos deixa quando lava os pés de seus discípulos: Ele estava aqui para nos lavar e apresentar-nos assim diante do pai. Alliás, lembro-me ainda no seminário ouvir um estudo sobre o verso 19 d0o capítulo 18 de Mateus, quando me foi dito que o que em nossa versão está traduzido por “ide”, deveria ser indo, pois o tempo verbal estaria no equivalente ao nosso gerúndio, o que sugere muito mais uma forma constante de agir e de ser, uma missão que transcorre pela vida no seu dia a dia.

           Que implicações esta consciência missionária perene, não intermitente, não territorializada, não espacial, mas total, contínua e inerente a toda a vida, nos traz? 1ª) A vida só alcançará seu real sentido e seu real significado se a entendermos dentro desta visão missionária contínua, que se dá no meomento a momento de nossas vidas; 2ª) Precisamos repensar com urgência todos os nossos investimentos, todas as nossas ações, todos os nossos projetos, todas as nossas motivações. Precisamos, ainda, de repensar nossas pregações, nossos ensinos, nossos conceitos, nossas práticas que temos entendido como sendo cristãs. E fazer todo este movimento para percebermos onde temos falhado quanto a deixar de pregar e de viver toda a mensagem cristã que envolve todas as dimensões da vida pessoal, social, eclesiástica, política, profissional, etc. 3ª) Precisamos entender que esta missão está associada ao campo onde será desenvolvida. Se tomarmos como Exemplo o campo de João, que em seu sentido geral é o mesmo que o nosso, estamos falando de trevas. João veio testificar da luz em meio as trevas. Este campo não tem por referência a presença de Deus. É um mundo sem a luz de Deus, sem seu amor, fora de Sua vontade, e o modo como está estruturado está muito longe do que propõe sua palavra.

          A urgência de uma nova mentalidade missionária deve-se a este fato: toda a vida, em suas múltiplas expressões está fora do que Deus planejou para ela, mas sutilmente temos naturalizado um imensidão de práticas e de comportamentos que vão de encontro a vontade de Deus. Mais que isto, temos santificado o que deveria ser amaldiçoado e eliminado de nosso meio. Temos santificado, por exemplo o consumo, o sucesso, a notoriedade, o status.

          Mas o que nos importa aqui primordialmente é que devemos pensar seriamente o que temos dito e feito quanto aos diversos temas que se referem a nossa vida: O que temos falado e feito sobre o desvalor que se tem tratado a vida humana? O que temos dito e feito sobre toda esta violência que assola nossas cidades? O que temos falado e realizado quanto a este modo consumista de se viver, onde a vida humana é valorizada por suas conquistas e pela notoriedade alcançada? Não temos vivido assim também? Não têm sido estes os valores que estão por trás de nossos projetos? Ou de fato queremos servir, pois nos vemos a nós mesmos como servos, como missionários de tempo integral, nas repartições, nas ruas, no lazer, em casa, no trabalho e até nas igrejas? Se somos missionários com visão e tempo integralmente a serviços de Deus, o que temos feito e falado sobre as injustiças sociais de nossos dias, da corrupção de nossos políticos, de nossos magistrados, de nossas autoriades? O que temos falado e feito quanto a pobreza, quanto a miséria, quanto aos meninos e meninas de rua, quanto ao sucateamento da saúde? O que temos falado e feito sobre um sistema educativo decíduo, desvalorizado, que deixa os seus alunos à margem das reais possibilidade de bem-estar da vida? Se Somos chamados por Deus para trazer luz as trevas, temos identificado as trevas? Ou, pelo conforto que nos dá, temos alumiado onde a luz está cansada de se fazer presente?

          Houve um homem enviado por Deus cujo nome era João, cujo nome era Antônio, cujo nome era Luiz, cujo nome era Cláudia, era você… Somos missionários, somos sal e somos luz, todo o tempo, em qualquer lugar, a todo o momento, para a todas as dimensões da vida, custe-nos o que custar, temos a missão de, a todo o momento e em todo lugar, assumirmos a identidade de filhos de Deus, pois fomos criados para amá-lo, servi-lo de modo ininterrupto.