Os estragos de uma vida emocional descuidada.
quarta-feira, setembro 23rd, 2009No último post, vimos como uma religiosidade orientada por regras, tradições e aparências acaba afetando nossa visão da vida e do mundo, nos fazendo demonizar até mesmo o celestial. Agora, quero pensar sobre como nossas doenças emocionais estragam nossa forma de ver e de lidar com o mundo, com Deus e com a vida.
A premissa básica é esta: gente que não se trata emocionalmente, ou melhor, que não se preocupa com sua saúde integral, terá pervertido o seu modo de compreender as coisas e as pessoas. Pois, com a visão de si mesmo comprometida, sua relação com tudo o que está fora de si será afetada. Em outras palavras, a nossa auto-imagem serve como uma lente que atribui sentido e valor à realidade à nossa volta.
Uma das afetações decorrentes da auto-imagem e auto-estima distorcidas é que podemos começar a ver e até criar demônios nas coisas e nas pessoas. Acho que é isto: endemoninhamos as coisas e as pessoas para não encararmos nossa própria demonização. Calma, gente! Não digo isso em um sentido literal: refiro-me apenas àquelas coisas perversas, que nos apavoram dentro de nós mesmos, que mais parecem entidades que nos escravizam, mas que não passam de sentimentos ou desejos doentios sobre os quais devemos ter toda responsabilidade. Não encarar as verdades sobre nós nos fará projetar sobre outros o que há de pior em nós. É por isso que podemos até encontrar pessoas falando sobre Deus o que se deve dizer do diabo. Já viu alguém fazer isso? Eu já.
Outra afetação é a de ficarmos procurando bruxas para caçá-las. Quem não tem uma identidade madura e bem trabalhada pode viver como se tivesse um Malleus Maleficarum (aquele famoso manual de caça às bruxas) impregnado em sua mente para julgar a tudo e a todos. Eu creio que, em geral, a caça às bruxas é feita por aqueles que morrem de medo de serem seduzidos por elas. Mas, se não reconhecemos nossos fantasmas, nossas bruxas internas, eles irão nos perseguir e, fugindo deles, os veremos em tudo.
Se, por um lado, temos um lado bruxa dentro de nós, cheio de mazelas e perversões, temos outro lado que pode estar ferido, machucado. Ouvindo as pessoas, percebo que violências sofridas e não resolvidas, mágoas e ressentimentos não perdoados, frustrações e fracassos não processados, culpas não curadas nos impedem de vivermos livres para ver o mundo, e toda a realidade ao redor, de modo equilibrado e saudável – o que também nos fará projetar nossas culpas, medos e mágoas nos outros. Além disso, nossa dor não resolvida nos faz ver a vida como um palco de injustiças e terrores onde somos sempre as vítimas.
Mas, que bom poder terminar como vou fazê-lo: toda religiosidade perversa e doentia e todas as doenças emocionais podem ser transformadas, sim. Um bom caminho para isso é refletir se temos vivido uma religiosidade fria e estéril, tal como a de um fariseu. Uma fé cheia de regras, tradições e legalismos aterrorizantes é doente. Fé é se sentir livre para gozar uma vida de amor com Deus. Parafraseando o meu amigo Antônio, ao falar do filho pródigo: fé é ser tão livre ao ponto de participar da festa com a maior cara de pau. Aleluia!
Outro caminho, que não exclui o anterior, é admitir nossas doenças emocionais e procurarmos ajuda. Eu parto do seguinte pensamento: todos nós temos uma parte que nos cabe no latifúndio das doenças emocionais. Mas, Deus nos amou e nos salvou e, dia a dia, está nos transformando em novas criaturas.
Esses dois caminhos podem nos ajudar não só a discernir melhor a natureza essencial daquilo que vemos e vivemos, mas também a lidarmos com a vida e as pessoas com mais leveza e saúde. Podes crer, será uma boa caminhada. Vamos?
Até.
No mais, deixemos de coisa, cuidemos da vida.
Vanderley
