Da superficialidade à profundidade à superfície

janeiro 31st, 2012 by vandi

Dificilmente alguém ouve a palavra superficialidade sem pensar em algo negativo, como banalidade, sem relevância ou importância, descartável. Mas quero pensar sobre ela em outra direção.

Há muitas e sedutoras vantagens em ser superficial. O superficial – aquele que vive livremente na superfície – é mais livre em suas escolhas e representações, pois não está preso à hermeticidade de fundamentos ou doutrinas. O superficial pode lançar mão de seus instintos, de sua intuição para concluir ou significar algo. Talvez seja neste sentido que Fernando Pessoa tenha dito que “a superficialidade na erudição é o melhor modo de ler bem e ser profundo”.
O superficial sofre menos, pois a dor, quase sempre, está no fundo de algo – em um saber que estava oculto e que veio à tona pra gerar angústia. O superficial sorri mais, dorme melhor, pois sua mente está solta no banal ou no simples. Quando criança, eu ia dormir pensando apenas se, no dia seguinte, o tempo estaria bom para soltar cafifa ou ir à praia. Quantas vezes desenhei um sol na terra para trazê-lo ao meu dia… Ali, na superfície, é que passa a brisa, é que estão as cores, é o lugar da cadeira de balanço, do riso solto.

Mas tem coisas que estragam a superficialidade – a vida na superfície.  E o que mais causa danos à vida na superfície é o desconhecimento do profundo. A superficialidade só pode ser boa se eu sei do profundo, mas escolho ficar na superfície. Quem não sofreu a dor do profundo, não pode, não conseguirá viver a felicidade da superfície. Não que só haja dor no fundo. Lá também tem silêncio, tem verdade, tem outro tipo de gozo, mas, o que é mais importante, é lá que está todo o sentido que falta na superfície.

Há muitas verdades que, em si mesmas, não trazem profundidade, mas no fundo que lhes suporta.  Vejamos o cogito de Descartes: “penso, logo existo”. A profundidade desta frase só pode ser alcançada se soubermos sob qual fundo descansa. Para Descartes, porque há um Deus sumamente bom eu posso ter a certeza de que não estou enganado quando concluo que existo por pensar. Descartes só podia falar de superficialidades – como a linguagem, o pensar – porque foi fundo em sua lógica: a crença em uma verdade universal e necessária, cujo único fundamento é a afirmação de um Deus sumamente bom. Ao contrário de Descartes, para Nietzsche não há nada no fundo – o que vemos é o que há: puro caos de forças enganadoras que só podem ser supostamente acessadas por meio de uma linguagem que não apreende verdade alguma. O superficial, então, em si mesmo, tendo-se ignorado e desprezado o fundo, é trágico, louco, mortal, enganador. Não foi sem propósitos que Nietzsche considerou Descartes superficial em seu cogito. E foi mesmo! Descartes, por sua lógica profunda, a partir dela, podia dar sentido ao que há de mais simples na superfície: “penso, logo existo”.

Falando em forma de parábola: a profundidade é como uma criança que não conseguia brincar no quintal de sua casa, pois tinha medo do que poderia haver no porão da mesma. A até que um dia decide nele entrar, acende a luz e, após verificar que o que estava lá não trazia perigo algum, pode brincar livremente na superfície de seu quintal. É verdade que ficar no porão não tem muita graça ou mesmo graça alguma, mas só posso sentir-me livre na superfície se conhecer e me livrar do medo que o porão me provoca. O mesmo pode ser dito para o sótão, pois as coisas profundas do alto precisam ser conhecidas para que eu viva livre na superfície sem medo do que lá existe.

Para mim, no fundo, no fundo, mas no fundo mesmo, sempre vou encontrar uma mão amorosa me esperando. Eu sei que Jesus estará sempre lá: posso existir sem medo na superfície.

A vida fica melhor nesta dinâmica do ir/ver/voltar; ir para o fundo na coragem de buscar enxergar a verdade sobre nós, sobre Deus, sobre a vida e voltar para a superfície – a vida com seus sonhos, seus atos e seus gozos e o sentido que o fundo, o profundo, lhe empresta.

Larga o osso, larga!

dezembro 16th, 2011 by vandi

Larga esse osso, larga!
Que coisa mais irritante é assistir políticos que se valem de todo tipo de artimanha para manterem-se no poder. Ainda que filmados na cena da falcatrua ou pegos com a mão na botija, ainda assim, fazem de tudo para não largarem o osso, não perderem a mamata. Mas não quero prender-me ao espanto desta atitude; acho que devemos refletir se nós também não temos “ossos” que já deveríamos ter largado.
Quando ouço a expressão “larga o osso”, logo penso no cachorro que faz de tudo para que ninguém lhe tire o osso que está roendo. É incrível como alguns cachorrinhos tão mansos viram verdadeiras feras quando alguém lhes ameaça tirar o osso. Passamos a usar esta expressão para traduzir a nossa dificuldade em largar as funções ou posições que ocupamos. O que faz com que nos apeguemos tanto aos nossos ossos funcionais ou profissionais? Por que não largamos os ossos de nossos cargos e trabalhos?
Pensando na minha experiência e na de algumas pessoas que conheço, creio que não largamos o osso por insegurança, por medo, por orgulho, por apego ao poder e ao status, por ganância ou por amarmos o que fazemos. Insegurança, pois em tempos de escassez e fome, ter um “osso para roer” nos traz, ainda que de modo fantasioso, tranqüilidade e segurança; medo, pois pensamos que podemos perder o que temos de mais importante na vida e que a mesma irá desmoronar – mas não se monta a vida sobre ossos; orgulho, pois não queremos dar o braço a torcer de que chegou a nossa hora de dar adeus e de sairmos de cena – é como se estivéssemos fracassando; apego ao poder e ao status, principalmente pelos benefícios que nos trazem e dos quais, não queremos abrir mão; ganância, este desejo insano de querer sempre e mais e de sugar todo o beneficio que puder do que fazemos; amor, pois nada preenche melhor a vida do que fazer o que se ama. A despeito da razão de nos apegarmos ao que fazemos, precisamos pensar se não está na hora de largarmos, sim, o osso.
Quando, então, devemos largar o osso? Não acho que seja fácil responder, mas se identificamos o nosso apego ao que fazemos por razões únicas de poder, orgulho, insegurança, medo ou ganância, precisamos pensar se não estamos sendo prejudiciais. Alguns indicadores podem nos ajudar: os resultados objetivos, pois se não consigo alcançá-los após recorrentes e prolongadas tentativas, pode ser que não esteja percebendo minha hora de sair de fininho e dar lugar a outro. Mas, somente o próprio roedor é capaz de saber se já tentou tudo o que devia. O feedback dos que estão com a gente na jornada pode ser outro indicativo, pois se muitos há muito tempo se mostram insatisfeitos com meu trabalho, pode estar na hora de sair. A saúde, pois se meu trabalho me é nocivo – ou se eu sou nocivo para os que comigo trabalham -, devo viver de outra fonte ou de outra forma. Mesmo se for o amor a razão de não largar o que faço, pode não ser esta uma justificativa razoável para me manter na função ou no cargo, pois posso estar prejudicando o próprio trabalho e as pessoas ligadas a ele.
Pense se você, assim como eu, já não passou da hora de largar o alguns ossos que nos são muito caros e bons de roer. Mas, talvez ainda seja tempo de ficar com ele – com o osso. Só Deus pode lhe ajudar nesta resposta. Mas, acima de tudo, precisamos ser verdadeiros, sermos honestos com as causas reais que nos fazem não largar o osso. E, se nesta avaliação do que se passa no seu coração, você conseguir enxergar uma razão que não justifique e aprove este seu apego ao que faz, se assim é, lhe aconselho: fique em paz, seja benção em outro lugar ou em outro modo e função, tenha coragem de passar o bastão: larga o osso, larga!
Deixemos de coisa e cuidemos da vida (e do osso certo)…

Pelo amor de Deus: dê um grito…

outubro 28th, 2011 by vandi

Acabo
de ouvir isto de um amigo, o Osmani: “A sociedade não conseguiria viver com uma
polícia que fosse realmente ética”. Vamos falar sério: será que conseguiríamos
viver em uma sociedade sem corrupção? E se a polícia parar de aceitar ou pedir
propina? Tenho amigos cuja documentação veicular está atrasada há anos. No
fundo eles sabem que sempre se pode dar um jeitinho. E se os fiscais não
aceitassem suborno, quais negócios continuariam funcionando? E se nossas contas
bancárias e bens fossem minuciosamente fiscalizados, nosso pagamento de impostos
seria do mesmo valor? E se o tráfico de drogas fosse impedido, resistiríamos �
tamanha opressão? E se os empregados tiverem seus direitos trabalhistas (salário,
encargos, horários, etc.) realmente garantidos, os manteríamos?

Não
tenho dúvidas de que a corrupção é uma desgraça destruidora, devastadora da
sociedade, mas precisamos pensar o quanto temos sido corruptores quando nossa
ética se perverte em prol de alguma vantagem.

Bastam
duas ações para se não acabar, diminuir a corrupção: não sermos coniventes e
não sermos passivos com os corruptos. Somos os produtores da corrupção quando
nutrimos o corrupto, aceitando o seu suborno, comprando sua droga, seu produto ilegal.
Mas também somos autores da corrupção quando somos passivos, inertes diante de
tanta desonestidade.

É tanta
roubalheira e tanta podridão que talvez estejamos naturalizando estas coisas,
nos acomodando a elas, mas nosso estupor deve crescer a cada dia. Há nomes que
quando penso neles fico estarrecido, irado, nauseado: gente ligada a federações
ou confederações desportivas, empresários gosmentos e fedorentos, políticos
malditos – corja de safadezas sínicas e desumanas. Mas somos nós que os colocamos
lá. A culpa é nossa! Nós, além de os colocarmos lá, nada fazemos para tirá-los,
mesmo diante de tantas e comprovadas traficâncias e velhacarias. São falcatruas
sem fim… e, ainda assim, nos calamos e os devolvemos a seus cargos de espoliação.
 Muito pior que votar em palhaços semi
analfabetos, em ignorantes e incompetentes que só querem um emprego de
altíssimo salário sem fazer qualquer esforço, é eleger e, pior, reeleger esta
escória de graduados no artifício de lesar e fraudar. Em nome de uma sociedade
um pouco melhor pra nosso filhos, netos e para nós mesmos: já passou da hora de
pagarmos o preço e deixarmos de ser os corruptores, seja por não mais bancarmos
esta escumalha fétida, seja por gritarmos, literalmente, contra estes ladrões sínicos
e desprezíveis, seja por votarmos em gente cuja vida tenha não apenas competência,
mas dignidade comprovada. Pelo amor de Deus, pelo amor do que temos de mais
sagrado na vida, em nome do que mais amamos: SAIA! GRITE! E NÃO VOTE MAIS NESTA
PODRIDÃO QUE ASSOLA NOSSA GENTE. E, SE LHE FOR POSSIVEL, AJUDE AOS POBRES. PELO
AMOR DE DEUS!

Pelo amor de Deus: dê um grito…

outubro 28th, 2011 by vandi

Desconstruídos para uma vida singular

setembro 30th, 2011 by vandi

Meros subprodutos de instituições e forças poderosas que nos dominam. Mais que isto: nos constróem. Toda nossa subjetividade identitária foi sutilmente construída no decorrer de nossa história. É deste modo que assumimos nossos papéis sociais, nossas funções, nossas vocações, nossas profissões.

É deste processo que sai o professor que não passa de um mero reprodutor de métodos ultrapassados e, o que é pior, de saberes caducos e anacrônicos, mas aos quais ele simplesmente repassa como se fossem o certo a se fazer. .

É deste processo que sai o médico que olha para seu paciente e não vê gente ali. O sujeito não é visto e seu corpo é analisado do mesmo modo que um mecânico vê uma máquina qualquer. Médicos insanos, cuja loucura é a de não se livrar de seus saberes desumanizantes onde a gente é coisificada. Dão a notícia trágica como se estivesse dizendo ao dono do carro: “tem que trocar o motor”, “a bateria pifou”…

É deste processo que sai o policial. Foi feito para combater o crime cometendo qualquer crime para cumprir este objetivo e, isto, quando o cumpre e não se vende a corrupção fácil. Fardam-se para poder usar de violência e truculência com o aval do Estado e da sociedade.

É deste processo que saem tantos pastores e padres: meros subprodutos de instituições religiosas falidas. Pastores cujas ministrações são caducas, anacrônicas; que desumanizam as pessoas e as tratam como produtos lucrativos; que se vêem como os paladinos defensores da moral – juízes e algozes que se autorizam em suas crueldades em nome de Deus.

Mas, não nos iludamos: eu e você estamos neste mesmo processo construtor: A nossa chance de libertação está em perguntar: This must be so?… e, então, olharmos pra Jesus.

Em Jesus vejo tudo tão simples e humano. Ele faz sentir-me guiado, cuidado e guardado. Em Jesus encontro toda a minha singularidade. Nele minha vida se desconstrói, dia a dia, para se reconstruir livremente, momento a momento.